Casa de Camilo

Camilo Castelo Branco

Camilo Castelo Branco
"desenhos do rui" clicar na imagem

Seide Saúda-vos!

17 de junho de 2012

Camilo na prisão... com leitores das 'Insónias'

E nem a chuva impediu que alguns leitores, das "Noites de Insónia", visitassem Camilo na Cadeia da Relação, através das Memórias do Cárcere.

A estes juntaram-se outros, curiosos por saberem como é que aquela cadeia albergou nome tão sonante como o de Camilo Castelo Branco.

Ainda na estação, o "Camilo" fez furor... (Quem é aquele? - perguntavam uns...)

Pois, Camilo saíu à rua e pôs muitos a pensar!... (...é que, mesmo atrás das grades ele não ficou preso, não!) 






E, aqui, o nosso amigo, Sósia de Camilo Castelo Branco, visto pela câmara de Gaspar de Jesus, na Cadeia da Relação (Centro Português de Fotografia):





Caminhada à Chuva... em noite de museus!

Para festejar mais uma noite de museus, 18 de Maio, Camilo saíu de casa e passeou mais a Brasileira de Prazins, fazendo uma visita ao Senhor do Paço de Ninães. Chovia a bom chover, mas não foi impeditivo que a eles se juntassem os amigos - não os cento e nove impávidos marotos - mas aqueles que sempre o acompanharam em todas as caminhadas da vida. 
E assim se cumpriu mais uma serenata camiliana... em noite de museus.










Pode ler-se mais, aqui:

http://casadecamilo.wordpress.com/2012/05/26/na-noite-dos-museus-a-casa-de-camilo-organizou-mais-um-percurso-camiliano/




14 de junho de 2012

Camilo na Cadeia...


31 março 15h30-18h30
Percurso Judicial de Camilo Castelo Branco no Porto
Ponto encontro – Centro Português de Fotografia

19 maio 15h00 sábado
Visita Camiliana à Cadeia da Relação Porto
Especial para Comunidade de Leitores


Inserido nas comemorações dos 150 anos de "Memórias do Cárcere", uma visita guiada, seguindo o "Percurso Judicial de Camilo Castelo Branco no Porto, passando pela Cadeia da Relação, pelo tribunal, ali à beira, onde está exibido o processo de Camilo e Ana Plácido, condenados pelo crime de adultério.
E ainda, passeio pelas ruas e casa onde tudo começou: o "Amor de Perdição", a paixão por Ana Plácido que levou Camilo à cadeia...



Os 150 anos da primeira edição da obra “Memórias do Cárcere”, o emocionante testemunho da experiência do escritor Camilo Castelo Branco nas celas da Cadeia da Relação do Porto, nos anos 1846 e 1861.


A Comunidade de Leitores das "Noites de Insónia" participou nesta visita à Cadeia da Relação do Porto


Aqui, as fotos da visita, em 19 de Maio de 2012


14 de fevereiro de 2012

Memórias do Cárcere – DISCURSO PRELIMINAR

Na próxima quarta-feira, 15 de Fevereiro,  começará a nova temporada das " Noites de Insónia". 
"Memórias do Cárcere" será a obra a ser lida e debatida nas 9 sessões que se seguirão. 




   Quem vir, em obra de tão pouca monta, o empavesado intróito dum  discurso preliminar,  entra logo a sorrir do desvanecimento com que um fútil romancista vem com a sua obra arreada de composturas, que só concertam ao justo em escritos de ciência, de filosofia, de história, e algumas vezes nos reportórios.          
   Acudo eu logo, por minha modéstia e bom juízo, alegando que  discurso preliminar, neste caso, quer dizer que o autor, antes de folhear os seus apontamentos do cárcere, há-de entreter-se algum pouco espaço com recordações, nem mais saudosas, nem gratas, que as dos ferros, mas benquistas do espírito e da gratidão que as reservou para esta hora. De gratidão, digo, e depois virá o porquê.
   Em uma risonha tarde de Maio de 1860 chilreavam as aves o seu hino crepuscular e de despedida ao formoso sol daquele dia. Os coretos dos alados cantores eram as amoreiras e acácias floridas da Praça de D. Pedro, as quais vaporavam de suas urnas de branco e rosa aromas suavíssimos. Por entre o arvoredo se andavam passeando e deliciando os amantes da natureza; e ela, deles namorada, parecia guardar-lhes para a noite os seus enfeites de mais primor, como fina amante, que mais se poetiza e doura, e enternece ao pálido luzir das estrelas.
E estava eu contemplativo e devaneando nisto, quando a carta de um amigo me avisou de uma sentença que me privava de contemplar as acácias, e aspirar os aromas, e escutar arroubados os hinos das aves. Ao aviso acrescia o conselho da imediata saída do Porto, antes que os aguazis me levassem a sitio onde os perfumes das árvores em flor da Praça de D. Pedro deviam chegar muito degenerados.
   Pareceu-me razoável este argumento de perfumes, e aceitei o alvitre do desterro, desterro voluntário para onde quer que a superabundância de  getas me desse azo a julgar-me em parelhas com Ovídio, comparação em que tanto Ovídio como as nossas províncias do norte se deviam magoar por igual, se o autor não estivesse gracejando.
   Às nove horas da noite desse dia, aí perto da igreja do Bonfim, senti a consolação das lágrimas, não minhas, lágrimas estranhas, que são, em alma adusta, como a nuvem que o céu abriu em vertentes sobre a terra rescaldada. Este chorar consolador era de homem que vai a meio caminho da vida com a mimosa sensibilidade dos quinze anos. Era Custódio José Vieira, o fervente tribuno, o cavalheiro pundonoroso até à bravura, o jornalista virulento, o advogado incendido em raptos de energia.
   Quem dirá que chora Custódio José Vieira? Quantas vezes eu tenho pedido aos seus maus julgadores que o reputem menos sanhudo que o leão de Numídia e o tigre de Benguela! (1) Os que o viram tribuno, nas praças e na imprensa, dizem que ele seria capaz de devorar uma família real inteira como quem come um pastelão de pombos. Os que o ouviram nos tribunais, pedindo aos próceres da república que se lavassem de nódoas indecorosas à sua memória, aventaram nele o sanguinário orador romano que pedia a cabeça de Catilina. Os que o viram ir a longes terras pedir desafronta, se porventura dois talentos podem sair-se com afrontamento digno de reparação, cuidaram que o timbroso moço queria ensopar as mãos em sangue, em formar no seu gabinete pavoroso uma galeria de crânios.
   Ora vejam que mal o julgava o mundo! Custódio José Vieira se visse um rei em perigo de cair nas garras de algum  Cromwell, o primeiro em que ele batia era no Cromwell. Se Custódio José Vieira visse a desonra dum estadista – imerecida desonra – promulgada pelo triunfo caviloso de sua eloquência, o mais atormentado pela calúnia não seria o réu. O acusador, cedo ou tarde convencido de sua iniquidade, iria buscar o holocausto de alheios vícios para lhe dizer no pináculo das honras, ou no raso da sepultura: «Na minha voz repercutiu a voz do mundo, por isso te acusei. Podias lançar de ti o estigma. Não quiseste; sabias que o segredo revelado da tua comiseração te restauraria a honra, acrescentada em outras que se não alcançam por trilhas vulgares. Enquanto os teus mais grados malsins de inventados crimes te gemem elegias ao pé do esquife, sem rasgarem as páginas em que te marearam a velhice, venho eu aqui dizer-te, ó grande que ora és nada, que iniquamente foste infamado, e eu, na torrente dos injustos, injusto fui contigo. Aqui deixo em pó, ao lado de tuas cinzas, a página que dei para o falso apreço da tua vida pública e íntima. Se deste acto me converterem a dignidade em peçonha, tragá-la-ei, para que assim pela expiação se vá remindo a consciência inquieta.»
                                             
(1) 
Em Benguela não há tigres; em Bengala, sim. Como a 3ª edição, que serviu de original, é revista pelo autor, mantemos Benguela, embora convencidos de se tratar de um lapso. (Nota do revisor.)

(...)
Era o primeiro dia de Outubro de 1860.
O céu estava azul como nos meses estivos. O Sol parecia vestido das suas galas de Abril, a bafagem do sul vinha ainda aquecida das últimas lufadas do Outono. Que formoso céu e sol, que suave respirar eu sentia, quando apeei da carruagem à porta da
cadeia!

   

13 de fevereiro de 2012

Memórias do Cárcere – I de Camilo Castelo Branco


PREFÁCIO DA SEGUNDA EDIÇÃO

As  Memórias do Cárcere  foram escritas na convalescença duma grande enfermidade moral. Conheci quanto pode o homem sobre si próprio, em quarenta dias de laboriosa provação, que tantos empreguei em ordenar estes quadros, que constituíram dois pequenos volumes na primeira publicação. Consistiu a minha luta em fingir uma estóica serenidade, que, tão ao revés da minha índole, vinguei e dissimulei. Assim mesmo haviam relanços no livro em que o propósito não lograra sopesar o espírito. Esses relanços desagradam-me agora, e hei-de cancelá-los espontaneamente. Ainda bem que de mui pouco me incomoda o arrependimento. Se me disserem que outro homem poderia dar mais louvável exemplo de cordura e mansidão, responderei que exemplo mais louvável só poderia dá-lo quem se calasse, em analogia de circunstâncias. Isso, a tê-lo eu feito, me seria agora motivo de muito orgulho – o orgulho de quem se alevanta superior às dores e às afrontas.
Este livro esteve a naufragar, quando eu cuidava que ele ia velejando em mar de leite. O título dera esperanças, que o texto desmentira. Afizera-se o venerando público à ideia de que as Memórias do Cárcere eram uma diatribe eriçada de injúrias, sarcasmos e glosas ao escândalo, que desgraçadamente as dispensava, tão à luz do sol se desnudara arrastado por praças e tribunais. Saiu o livro, mentindo às esperanças de muita gente, que o esperava à feição de sua vontade para ter o prazer de me condenar. O resultado foi condenarem-me, porque raras vezes estas páginas se enlamearam no assunto lastimável que as sugeriu.
Para contrafazer ao desconceito que algumas pessoas votaram ao livro, saiu-me favorável o parecer de outras, que mostraram desejo de ver esta obra expurgada de algumas manchas que lhe afeiam a continente placidez com que discorre quase sempre arredada da minha questão toda pessoal, e por isso mesmo odiosíssima.
Desgostos mais graves me sobrevieram. Inimigos mais estúpidos que maus quiseram ver, no modo como eu falei do meu prestante e obsequiador amigo José Cardoso Vieira de Castro, uma intencional e pouco rebuçada desconsideração. Doeu-me deveras isto, mormente porque Vieira de Castro, de feito, se quis ver desconsiderado nesses períodos, que vão agora integralmente reproduzidos. A calúnia de gentio, empenhado em desatar o laços de muita estima e obrigação que me ligam àquele cavalheiro, enojava-me; porém, o assentimento do moço ilustrado às aleivosias dos lorpas, doeu-me no mais sensível da minha alma. Se eu agora retocasse alguma das palavras referidas ao meu amigo, quem maior testemunho dava da sua miséria seria eu. Os alarves batiam as palmas, e Vieira de Castro pasmaria!
A imprensa periódica foi benigna com este livro. Nenhuma crítica, ao menos das que eu li, me infamou de escandaloso o escrito. Grande número dos censores notaram e louvaram a inofensiva contextura destas historietas, que, em geral, miravam a fazerem-se ler alegremente. Se o consegui, esta suprema violência, que eu fiz ao meu espírito, devera ser tida em conta, não de habilidade, mas de muitíssima força de alma.

CAMILO CASTELO BRANCO

25 de janeiro de 2012

Leituras Escolares

Camilo Castelo Branco
Camilo Castelo Branco é um dos principais escritores da língua portuguesa. Toda a gente conhece o Camilo escritor de romances, mas poucos conhecerão o Camilo Castelo Branco escritor de textos científicos.
O livro  Leituras Escolares   tem um texto intitulado " A agua" da sua autoria.
Segue-se o interessante escrito na sua grafia original.

            "A’ semelhança do ar, é a agua indispensável á  conservação da vida animal. Reduzida a vapor, condensa-se em nuvens, desfaz-se em chuva e volve-se um dos princípios mais fecundantes da vegetação. A agua corrente é o mais económico motor ao alcance do homem; aquecida até certo grau, faz-se agente de força illimitada (machina de vapor); é, em summa, um magnífico adereço do universo.
Os ribeiros, lagos e catadupas aformoseiam a paizagem, e não há ahi coisa mais majestosa que a corrente de um rio largo, e nada mais espectaculoso que o mar em tormenta.

A agua que envolve parte do globo ( a agua marítima), ou a que lhe deriva no interior, ou á  flor da terra (agua doce), contém matérias extranhas, que lhe depuram mediante a vaporização ou a destillacão. Quem quer saber a quantidade de matérias sólidas, taes como sulfato de cal e carbonato de cal, dissolvidas na agua de fonte ou poço, faz evaporar o liquido em um vaso vidrado, posto ao fogo. A valia-se a pureza da agua consoante a qualidade e natureza do resíduo. Devem considera-se boas para beber as aguas correntes, límpidas, sem cheiro, nas quaes se cozem bem os legumes e sem cheiro, nas quaes se cozem bem os legumes e se dissolve o sabão sem produzir grumos, nem perder a limpidez, ainda que lhe disslvâmos nitrato de prata, e que, evaporadas até ao extremo, deixem pequeno ou nenhum depósito. A agua pura, a não ser sufficientemente arejada, não é boa. Agua procedente de chuva, neve ou gelo deve ser filtrada ao travéz de pedra porosa ou camada de areia fina. Depois, é mister vascolejá-la em loca bem arejado, para que ella se torne excellente.

A agua passa do estado líquido ao sólido pelo abaixamento de temperatura (quando géla). Neste caso, o seu volume progressivamente diminue  até marcar cerca de quatro graus centígrados de temperatura, pouco mais ou menos, acima de zero do thermómetro. E’ então que ella ao seu maximum de densidade ( o maior peso no mesmo volume). D’aqui em deante, o liquido dilata-se, e, se o vaso que o contém, não é movido, a temperatura póde baixar até cinco graus sem gelar; mas, logo que o vaso é agitado, apparece multidão de caramellos que se agrupam, formando massa de agua gelada, cujo volume é maior que o do líquido de que procede. Calcula-se que 14 litros de agua produzem 15 litros de gêlo. Isto explica as rupturas longitudinaes das arvores nos Invernos aturados. Tem-se visto a agua gelada, em canudo de ferro de espessura de um dedo, abri-lo por dois pontos. Também se calcula que a força empregada pelo gêlo no rompimento de uma esphera de metal, equivale a 13:860 kilogramas."



20 de janeiro de 2012

O namoro em 1815

Rua do Porto
Foto retirada daqui:

O namoro em 1815

Em 1815 podia-se namorar honestamente de uma janela para a outra, na Rua das Flores, sem que uma patrulha insolente parasse debaixo para testemunhar a vida íntima dos que lhe pagam. Podia cochichar delícias a donzela recatada da trapadeira para a rua, sem que o amador extático ao som maviosíssimo daquela voz, receasse o retire-se! brutal do janizaro. Podia, finalmente, segurar-se o gancho de uma escada de corda no terceiro andar, subir impávidamente, conversar duas horas sobre vários assuntos honestos, e descer, sem o receio de encontrar cortada a retaguarda por um selvagem armado à nossa custa, que nos conduz ao corpo da guarda a digerir a substância da deliciosa entrevista.
Bem-aventurados, pois, os que namoravam em 1815.

Camilo Castelo Branco

16 de janeiro de 2012

Daqui houve nome Portugal




Prefácio:
A Domingos Peres das Eiras com umas Violetas


(...)
- Precisas de ler Camilo - responderam-me. Eu calei-me: não era forte em Camilo. Pensava no espírito tão genuinamente popular desta terra, a que se encontrava vinculada a mais alta das virtudes, a sua fronderie liberalista, que conquistou o privilégio de banir a nobreza dos seus muros e não permitiu ao Tribunal do Santo Ofício celebrar aqui mais do que um só auto-de-fé. Que me importava a mim, naquele momento, o que Camilo dissera do Porto? Poderia alguém, Camilo ou quem quer que fosse, negar aquela beleza desgrenhada e áspera que tinha diante dos meus olhos? Só mesmo quem fosse cego de nascença...
(...)
Quanto a Camilo só o li - e mal, é certo! - muitos anos depois: quando voltei ao Porto para ficar. Quem o nega? Camilo viu do Porto a outra face, a do «burgo antigo com a sua dinastia de comerciantes», que o Eça também lhe descobre, sem contudo lhe negar o que Camilo lhe negou - a honradez: «O bom portuense se quiser ter foros de cidadão terá de provar que o bisavô veio para a cidade com uma broa e meio presunto no saco, escarranchado sobre dois costais de castanholas; que o avô teve balcão de fazendas brancas e foi irmão do Santíssimo, irmão benemérito da Misericórdia, e vinte anos a fio vestiu balandrau para pegar ao andor de Nossa Senhora. Item, que o pai era, sem vergonha do mundo, negociante de quatro portas, afora os postigos por onde passava o contrabando; que sua mãe fora uma gorda e boa mulher que remendava, passajava e sabia mesmo deitar uns fundilhos nas calças do marçano e nunca na vida tivera pacta com letra redonda.» Era isto o Porto , na juventude de Camilo? Se pensarmos no pendor caricatural e polémico do autor do «Amor de Perdição», nas circunstâncias em que tais palavras, e outras, e outras, foram escritas (poucas vezes, como aqui, o verso de Pessoa «Compra-se a glória com desgraça» terá tido tanta ressonância), poder-se-á objectar que a imagem está um tanto ou quanto desfocada; ou se preferem: não seria o provincianismo apelintrado, que se despeja inteiro na cidade da Virgem, afinal, característica de todo o país? Do país..., do país..., que pensava Camilo? Oiçam-no! «Quando se fará ao menos inodora esta cloaca de Portugal?»  Azedo, agastado, doente, «escouceado» numa terra que lhe não perdoava o sarcasmo, como a Garret não perdoou a ironia, Camilo ainda pôde, contudo, escrever a um amigo: «Estou triste. Aproxima-se a hora de deixar para sempre esta terra, onde a par de muitos dissabores, experimental alegrias instantâneas. Não é da gente que tenho saudades. É de não sei o quê...» São realmente muito tortos os caminhos do amor...
Mais do que sarcasmo de Camilo, que disfarçava, ao fim e ao cabo, uma ternura por esta gente metida nos seus «tamancos estóicos» (se assim não fora, como explicar que ele lhe tenha mordido e remordido o coração?), surpreende o desprezo de António Nobre,...
(...)
A grande trindade poética que lavra, nesta pedra escura, o perfil seguro do Porto - Fernão Lopes, Garret e Camilo - leva fatalmente à cidade uma pessoal visão do mundo, o seu génio próprio. O Porto de Fernão Lopes é quase legendário: heróico e honrado; o de Camilo, grotesco e dramático; o de Garret, irónico, pitoresco e sentimental. São três tempos (em duplo sentido: histórico e musical) do seu carácter que, embora esquematicamente enunciados, nos permitem algumas aproximações. A cidade viril de Fernão Lopes é ainda a de Herculano, Ramalho, Jaime Cortesão e Miguel Torga; Raul Brandão, Pascoaes e Agustina estão, de algum modo, na continuação do pessimismo de Camilo; de Garret parte, dessorada, perdido por completo o seu impenitente humor, toda uma toada que de Júlio Dinis e António Nobre vem desaguar em tanta loa tacanhamente regionalista e deprimente. Isto para falarmos apenas de quem mais se debruçou na alma destas pedras, bem pouco transparente, como se vê.
(...)

«Para a minha alma eu queria uma torre como esta, assim alta, 
assim de névoa acompanhando o rio.»

S. Lázaro, 1967
Eugénio de Andrade



Nota: Texto retirado do livro: "Daqui houve nome Portugal" - Antologia de verso e prosa sobre o Porto - Organizada e prefaciada por Eugénio de Andrade.

Bibliografia de Camilo Castelo Branco encontrada no livro:
«Obras Selectas - A Filha do Arcediago - Onde Está a Felicidade? - Ecos Humorísticos do Minho - Anos de Prosa.»

12 de janeiro de 2012

NATAL no Porto


"A noite de amanhã, no Porto, é um inferno em que, se não há o bíblico estridor dos dentes, há o flagício das cabeças infligido pela orquestra bárbara dos garotos, que conservam a instrumentação com que os pastores da Galileia festejaram o menino recém-nascido no presépio de Belém. São os ferrinhos, as sacabuxas, a viola chuleira, e as gargantas deles, que dilaceram pela rouquidão e pelos pigarros dos depósitos dos maus vinhos. A cada par de patacos que arrancam às famílias que transigem oprimidas e compram o silêncio daqueles bandidos, entram na taberna, aferventam o entusiasmo, e esmurraçam as portas que não se abrem.
Selvajarias de cafres cristãos. No Porto celebram-se  de tal maneira as festanças ruidosas pelo natalício do mansíssimo Jesus, que parece, naqueles estrondos de raiva e de algazarra, estar-se comemorando com dissonâncias de réprobos, não o nascimento de Jesus, mas sim o nascimento do diabo. Ó Cristo civilizador! envia um raio sereno e luminoso da tua graça àqueles garotos, visto que a polícia não se importa. (...)" 

Camilo Castelo Branco
Nota: Texto retirado do livro: "Daqui houve nome Portugal" - Antologia de verso e prosa sobre o Porto - Organizada e prefaciada por Eugénio de Andrade.

Bibliografia de Camilo Castelo Branco encontrada no livro:
«Obras Selectas - A Filha do Arcediago - Onde Está a Felicidade? - Ecos Humorísticos do Minho - Anos de Prosa.»



28 de dezembro de 2011

Batendo à porta do Ano Novo



Batendo à porta do Ano Novo
A Luz que vem de um Portugal que há-de renascer de novo...
Ano de anis
Frutuoso
Sonho petiz
Chegando novo

Quero-te banhado
De esperanças viris
Justo e honrado
Sonhando eu quis

Venho pedir
Não sejas um fado
Faz-te porvir
Salário igualado

Vende a saudade
Do teu passado
Inventa vontade
De um passo renovado

Dá-nos certeza
Enterra a maldade
Pinta a pobreza
De cor dignidade

Quero ser mais feliz
Também este povo
Faz o País
Viver ano novo!

Um poema de Ausenda - Utopia das Palavras
http://poemas76.blogs.sapo.pt/2008/12/


PostHeaderIcon DEIXA OS TEUS MANUAIS NA ESCOLA

Campanha  de solidariedade de  recolha de manuais ( em vigor)
A Escola Secundária Camilo Castelo Branco promove uma campanha de recolha de manuais escolares em vigor, a fim de serem emprestados aos alunos mais necessitados. A entrega deve ser feita na nossa Biblioteca.

29 de novembro de 2011

Magusto camiliano... com a Viúva do Enforcado


No passado dia 16 de Novembro terminou mais uma temporada de "Noites de Insónia" - e, como já vem sendo costume, termina sempre em festa. O magusto é sempre um pretexto para o convívio entre todos. Depois de bem 'comidos e bebidos' é que se dá início ao debate. 

"A Viúva do enforcado" não faltou ao convívio e o professor João Paulo Braga deu-lhe os devidos créditos. É sempre com muito gosto que o ouvimos ler trechos dos romances solicitados e muito apreciamos a clareza com que nos expõe a obra camiliana.

O anfitrião da Casa de Camilo, Dr. José Manuel Oliveira, encerrou a sessão e informou sobre a possibilidade de continuação desta comunidade de leitores, anunciando novidades para a nova temporada em 2012.
Aguardemos, então, pelo início do novo ano e pelas obras de Camilo ainda não debatidas, pois que a nossa meta é conhecer e reconhecer o escritor de Seide, através da sua vastíssima obra. 
Ainda teremos muito que ler... mas é sempre um prazer convidar Camilo Castelo Branco a entrar nas nossas casas, conhecer as nossas mesinhas de cabeceira,... e, connosco, encetar diálogos empolgantes... 

As fotos do último encontro: 



9 de novembro de 2011

À Memória do Senhor Rei D. Afonso Henriques


A sessão de NOITES de INSÓNIA, "A Viúva do Enforcado", do próximo dia 16 de Novembro, foi antecipado para as 20h para festejarmos o "Magusto" - será necessário levar uma 'multa' para o jantar-convívio (Desta vez, no Centro de Estudos Camilianos).




Eu não podia escrever uma novela urdida com factos de Guimarães sem me lembrar do mais notável filho daquela terra - o Senhor D. Afonso Henriques.

Procurei nas ruas e praças de Guimarães a estátua do fundador da monarquia. A cidade opulenta, que tem ouro em barda, e abriu dois Bancos como os pletóricos que se dão duas sangrias, não teve até hoje um pedaço de granito que pusesse com feitio de rei sobre um pedestal!

Se eu fosse rico, ou sequer pedreiro, quem fazia o monumento de Afonso era eu. Assim, como último dos escritores e o primeiro em patriotismo, apenas posso aqui levantar um perpétuo padrão ao vencedor de Ourique - ao real filho da mãe ingrata.

Camilo Castelo Branco, In Novelas do Minho - "A Viúva do Enforcado" (1877)


Guimarães histórico, aqui:
http://lucy-natureza.blogspot.com/2009/03/de-guimaraes-ou-de-viseu.html

26 de outubro de 2011

A viúva do enforcado (Novelas do Minho)

No próximo dia 16 de Novembro, na Casa de Camilo, 20h, nas NOITES DE INSÓNIA. 
(Levar uma multa para jantar-convívio)



A viúva do enforcado

Teresa, a única filha de um comerciante de Guimarães, é uma moça devota até ao dia em que se encontra e apaixona por um jovem ourives. Perante a oposição do pai, e com a ajuda de um abade, eles casam e fogem para Espanha para fugir à ira do pai dela. Aí ela conhece Inês, a filha do alcaide da cidade onde se refugiam, que está apaixonada por Álvaro, um outro português, que foge da forca por homicídio. Este e Inês estãop noivos, mas quando Teresa enviúva de repente, a situação altera-se e Álvaro, declara-se a Teresa e eles decidem casar. Inês refugia-se em Madrid e mais tarde morre, deixando o alcaide desesperado. Este vinga-se fazendo Álvaro cair nas mãos da justiça portuguesa, que o virá a enforcar.



19 de outubro de 2011

A Filha do Arcediago

Hoje, 19 de Outubro de 2011, 21:30h, na Casa de Camilo - NOITES DE INSÓNIA
(Comunidade de leitores)



TERCEIRA EDIÇÃO
PORTO


1868

[5]
Leitores! Se ha verdade sobre a terra, é o romance, que eu tenho a honra de offerecer ás vossas horas de desenfado.
Se sois como eu, em cousas de romances (que no resto, Deus vos livre, a vós, ou Deus me livre a mim) gostareis de povoar a imaginação de scenas, que se viram, que se realisaram, e deixaram de si vestigios, que fazem chorar, e fazem rir. Esta dualidade, que caracterisa todas as cousas d'este globo, onde somos inquilinos por mercê de Deus, é de per si um infallivel symptoma de que o meu romance é o unico verdadeiro.

Eu sou um homem, que sabe tudo e muitas outras cousas. Não espreito a vida do meu proximo, nem ando pelos salões atraz d'uma ideia, que possa estender-se por um volume de trezentas paginas, que, depois, vil espião, venho vender-vos por 480 reis. Isso, nunca.

Tudo isto que eu sei, e muito mais que espero saber, é-me contado por uma respeitavel senhora, que não vai ao theatro, nem aos cavallinhos, e que tem necessidades organicas, mas todas honestas, e, entre muitas, é predominada pela necessidade de fallar onze horas em cada dez. Desde que tive a ventura de conhecel-a, não invejo a sorte de ninguem, porque vivo debaixo das mesmas telhas com esta boa senhora, e posso satisfazer a mais imperiosa necessidade da minha organisação, que é estar calado. É que não podemos fallar ambos ao mesmo tempo.

E, depois, a sua conversação, escassa d'arrebiques, e despretenciosa, abunda em riquezas naturaes, em thesouros[6] impagaveis para o escriptor publico, em estudos sociaes adquiridos no testemunho de factos da vida, que não vieram ás locaes do jornalismo, porque a imprensa, ha poucos annos que denuncia os casamentos, os obitos, e os suicidios.

Ingrato seria eu, se não significasse aqui, com toda a cordialidade de que sou susceptivel, o meu reconhecimento á dita pessoa, que promette elevar-me á importancia de escriptor veridico, n'um genero em que todos os meus collegas mentem sempre.

No momento infausto em que os sêllos do tumulo me fecharem este livro do passado, obliterar-se-ha a fecunda veia de romancista, d'onde tenho havido uma barata immortalidade para mim, e para a minha collaboradora.

O publico, maravilhado da minha esterilidade, dirá então que os meus romances eram d'ella; e um nome, hoje obscuro, será exhumado do esquecimento para quinhoar da gloria dos escriptores-fêmeas d'esta nossa terra tão escassa—ainda bem—d'esse contra-senso.[7]

Fonte: http://www.gutenberg.org/files/27364/27364-h/27364-h.htm
(leitura completa)

24 de setembro de 2011

As aventuras de Basílio Fernandes Enxertado

No passado dia 21 de Setembro, reuniu-se o grupo de leitores das Noites de Insónia, na Casa de Camilo, sob a coordenação do Professor João Paulo Braga.

Depois de férias, nada melhor do que relembrar o espírito irónico de Camilo através da sua obra: As aventuras de Basílio Fernandes Enxertado.


"Nasce o herói. A cabeça e as espertezas do mesmo"

Setembro 13, 2011 por Casa de Camilo: http://casadecamilo.wordpress.com/


Basílio foi o primogénito e único. Nascera muito gordo e extraordinariamente volumoso. Tinha a cabeça igual ao restante corpo, e uns pés dignos pedestais do capitel da irregular coluna. Enquanto ao tamanho da cabeça, foi este o motivo para muitas alegrias na casa; no parecer daquela mãe ditosa, a grandeza da cabeça era sinal de juízo, e o tamanho das orelhas correlativas sinal de bom coração. O pai, como não tinha ideias suas acerca de orelhas, abundava nas de sua mulher, posto que de via certa soubesse que um mau vizinho da porta dissera que o seu Basílio era aleijado, e sairia com orelhas de burro, se se demorasse mais de três meses no ventre materno.

… José Fernandes, como o filho tivesse oito anos bem espigados, comprou-lhe um A B C, e foi levá-lo à escola. Era a cabeça de Basílio, no dizer do mestre, muito mais dura, e tapada, e maior que a bola de pedra da torre dos Clérigos. Ao cabo de três meses, Basílio já conhecia um o e um i; mas, se tirassem o ponto ao i, chamava-lhe o. O mestre seguia o sistema da pancadaria, sistema o mais racional de todos com cabeças daquele feitio.

(In As aventuras de Basílio Fernandes Enxertado)

3 de setembro de 2011

A Ponte entre os Amores de Camilo...


Foto da autora do blog. Proibida a cópia sem autorização.


Amor de Perdição

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre

Amor de Perdição é o título de uma novela portuguesa de Camilo Castelo Branco, escrito em 1862. É o mais famoso romance do autor, um dos expoentes do romantismo em Portugal.

A redação dessa obra, sua maior novela passional, foi inspirada em suas desventuras - sempre envolvido em casos amorosos complicados - e na peça Romeu e Julieta, de Shakespeare. Com a publicação da obra em 1862, Castelo Branco alcança grande popularidade.




Amor de Salvação


Amor de Salvação é o título de um romance de Camilo Castelo Branco, publicado em 1864.

«O amor salva? O romance Amor de Salvação, de Camilo Castelo Branco é um romance passional, considerada pela crítica uma das obras mais bem acabada do autor. A história relata lembranças que são contadas ao narrador pelo protagonista, em uma noite de Natal, após um reencontro entre os dois que não se viam há quase doze anos...» - resumo no blog "Camilo 2.0" (http://camilo20.wordpress.com/2009/06/26/amor-de-salvacao-3/)




No slide: Um amor comum - nos cenários de Samardã e Ribeira de Pena



"Quando Camilo Castelo Branco desceu de Vilarinho da Samardã para Ribeira de Pena, atravessando as áridas paisagens do Alvão, seria um rapaz imberbe, com apenas quinze anos feitos. Convivendo com o drama da orfandade, integrado numa família para quem era mais um encargo do que alegria, Camilo começava a despontar para a vida, para o amor, para o sonho e para a ansiedade de possuir o mundo. Acredito que ao descer de Vidoedo e vislumbrar todo o vale do Tâmega verdejante, viçoso, a seus pés, tenha sentido arroubos de liberdade.

Esperava-o, lá no fundo, junto ao rio, sua prima Maria do Loreto, casada com um lavrador da Casa do Moreira, em Friúme. Em Friúme, Camilo conviveu com o boticário Macário Afonso que lhe ensinou a jogar “às damas e ao gamão”; com o tabelião José de Mesquita Chaves, de quem foi “amanuense” pelo menos durante um mês; com os fidalgos da Casa de Fontes com os quais organizou entremezes. Frequentou as aulas do Padre Manuel da Lixa, na Granja Velha “sujeito de não vulgar lição e bom velho, sobretudo”. Calcorreou rios e montes atrás de trutas e de coelhos. Casou na Igreja do Salvador a 18 de Agosto de 1841 com Joaquina Pereira de França. Camilo conta que saiu de Ribeira de Pena fugido “aos punhos de um morgado visigótico”, que ridicularizara em versos. Os punhos eram certamente verdadeiros, o castigo acredito que merecido, mas tudo não terá passado de um pretexto para iniciar novos voos, que uma terra pequena e fechada como Ribeira de Pena não permitiam ao génio do futuro romancista. Que ficou de tudo isto? Páginas inesquecíveis onde a memória da Ribeira perpassa com grande riqueza de elementos. Personagens como Santo da Montanha ou o Fidalgo Mendigo, delírios como os do Fantasma do Capitão-Mor de Santo Aleixo ou o enredo de “Como Ela o Amava”. Essa pequena jóia da literatura portuguesa, a “Maria Moisés”, toda ela ribeirapenense.


Seguramente, Ribeira de Pena não era terra para Camilo Castelo Branco. Mas a sua arte teria sido bem mais pobre sem o manancial humano que o escritor ali bebeu em dois curtos anos de vida."


Serviços Municipais - Camilo e Ribeira de Pena:
http://www.cm-rpena.pt/?pg=serv_municipais&sec=ecd&sec2=camilo_r_p

25 de julho de 2011

Samardã


''Eu que conheço a Samardã, desde os meus onze anos.
Está situada na província transmomtana, entre as serras do
Mesio e do Alvão. Nas noites nevadas, as alcateias dos
lobos descem à aldeia e cevam a sua fome nos rebanhos,
se vingam descancelar as portas dos currais; à míngua de
ovelhas, comem um burro vadio ou dois, consoante a
necessidade. Se não topam alimária, uivam lugubremente,
e embrenham-se nas gargantas da serra, iludindo a fome
com raposas ou gatos bravos marasmados pelo frio. Foi
ali que eu me familiarizei com as bestas-feras; ainda
assim, topei-as depois, cá em baixo, nos matagais das
cidades, tais e tantas que me eriçaram os cabelos....''

Camilo Castelo Branco
In Novelas do Minho
'O Degredado'

15 de julho de 2011

Nos passos de Camilo ... 2ª parte

 Na foto: Igreja Matriz do  Divino Salvador em Ribeira de Pena

«Foi nesta igreja  que casou, em 18 e Agosto de 1841, Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco, na altura com 16 anos de idade, com Joaquina Pereira de França, uma jovem de 14 anos, natural de Gondomar e residindo na povoação de Friúme com seus pais.»  - Roteiro Camiliano em Ribeira de Pena

Ribeira de Pena esperáva-nos para o resto do percurso camiliano, tendo como guia o Dr. Emanuel Guimarães. Em dois pequenos autocarros, cedidos pela Câmara Municipal, seguimos para Friúme, local para onde Camilo vai viver, entre um a dois anos da sua vida, depois de abandonar a Samardã.

Segue-se uma pequena parte do texto de Francisco Botelho -"Camilo e Ribeira de Pena" - que vem na contracapa dos "Contos Ribeirapenenses de Camilo (Como ela o amava! História de uma porta e Sexto casamento feliz) uma Edição da Câmara Municipal de Ribeira de Pena, que, gentilmente, nos foi oferecido na visita.

«Quando Camilo Castelo Branco desceu de Vilarinho da Samardã para Ribeira de Pena, atravessando áridas paisagens do Alvão, seria um rapaz imberbe, com apenas quinze anos feitos. Convivendo com o drama da  orfandade, integrado numa família para quem era mais um encargo do que alegria, Camilo começava a despontar para a vida, para o amor, para o sonho de possuir o mundo. Acredito que ao descer de Vidoedo e vislumbrar todo o vale do Tâmega verdejante, viçoso a seus pés, tenha sentido arroubos de liberdade.
(...)»

Este nosso passeio teve como mote a novela "Maria Mosés" - livro agendado para este mês de Julho, na continuação dos encontros da comunidade de  leitores das "Noites de Insónia".

 Na foto: "As poldras" - no rio Tâmega

«Ao avistar as poldras que alvejavam poídas e resvaladíssimas ao lume de água, teve vertigens e disse: "Eu vou morrer". Pôs o berço à cabeça, esfregou os olhos turvos de pavor, e esperou que as pancadas do coração sossegassem. Depois, benzendo-se, pisou com firmeza as quatro primeiras pedras; mas daí em diante ía como que cega; a corrente parecia-lhe caudal e negra. Quis sentar-se numa das polras; e, na precipitação com que o fez para não cair, escorregou ao rio.» - Camilo Castelo Branco, em "Maria Moisés", uma das novelas do Minho - podemos considerar esta pequena jóia da literatura portuguesa, segundo Francisco Botelho, toda ela ribeirapenense.

 Na foto: Ponte de arame

«(...)E se a Ponte de Arame não é contemporânea de Camilo, ela é um local extremamente agradável
para acompanhar a leitura de dois textos alusivos à travessia do Tâmega e escritos por Camilo.
Um, através das poldras, figura na novela “Maria Moisés”. O outro, uma travessia de barca, é
descrita no Sexto dos “Doze Casamentos Felizes”.(...)» - Roteiro Camiliano em Ribeira de Pena

Ver o Roteiro camiliano completo aqui:
http://brp.no-ip.org/images/editorfile/Roteiro_Camiliano.pdf

Na foto: Convívio com 'canto coral à mistura' -  José Manuel Oliveira com o cancioneiro na mão e Reinaldo Ferreira à viola. 

Agradeço aqui ao Dr. José Manuel Oliveira, director do Centro de Estudos Camilianos, em Seide, a  feliz oportunidade que nos deu com tão maravilhoso passeio, o enriquecimento cultural e o convívio espectacular que todos bem-dizemos e que desejámos se repita mais vezes. 
Bem haja! 

Ribeira de Pena- 2ª parte
 

13 de julho de 2011

Nos passos de Camilo... 1ª parte

Visitar Vilarinho da Samardã, em Vila Real, e Friúme, em Ribeira de Pena, ... onde Camilo passou parte da sua infância e juventude, leva-nos muito atrás no tempo, ao tempo de seguirmos os passos de um jovem feliz, caminhando tão em sentido oposto aos passos finais que lhe conhecemos em S. Miguel de Seide.
Foi com alguma nostalgia, mas com imenso prazer, que acompanhámos o nosso anfitrião de Seide, o Dr. José Manuel Oliveira, que nos guiou nesta parte do Roteiro Camiliano.  
Saídos de Vila Nova de Famalicão na manhã cinzenta e chuvosa de 9 de Julho, em jeito de ameaça  de nos encobrir a paisagem o dia todo, assim chegámos a Vila Real, onde nos abastecemos com umas deliciosas e quentinhas "covilhetes" (tipo empadinhas de carne) da pastelaria Gomes. Daí seguimos para Vilarinho da Samardã, local onde viveu Camilo Castelo Branco e sua irmã, vindos de Lisboa assim que ficaram orfãos.
Foi aqui, na casa da tia Rita Emília, que Camilo passou os anos mais felizes da sua infância e adolescência, conforme as suas próprias palavras, usadas na inscrição da parede da casa:

"Eu não tenho imaginação, tenho memória, memória do que vi, do que senti, do que experimentei." (Vingança, 1858)

"Quando quero retemperar a imaginação gasta, vou caldeá-la à incube do viver campesino. Evoco lembranças da minha infância e adolescência, passadas na aldeia, e até a linguagem me sai de outro feitio, singela afectação, casquilha sem os requebrados volteios, que lhe dão os inviesados estilistas bucólicos". (Vinte Horas de Liteira, 5ª edição, 1966)



E, passadas as primeiras impressões, as mais sentidas em comoção e lembranças felizes do nosso escritor de Seide, eis-nos instalados num magnífico parque de merendas ali perto, onde nos propusemos alegrar o dia com um repasto delicioso, guitarradas e cantigas, agradecendo aos céus por nos dar uma 'aberta' no tempo, o tempêro do estômago e a leveza da alma. Foram momentos magníficos vividos em partilha e alegria com o grupo de leitores e coordenadores das Noites de Insónia, mais todo o pessoal que cuida e rege a Casa de Camilo e o Centro de Estudos Camilianos, em S. Miguel de Seide, contando ainda com a presença de alguns familiares e amigos.

De seguida, fomos para a aldeia de Bragadas, em Ribeira de Pena, visitar a famosa porta que deu ensejo à "História de uma porta", inserida nos contos: Noites de Lamego.


 


































"A cena decorre em Bragadas, lugar da margem fronteira a Friúme.
(...)
Bragadas está no viso de um outeiro, cujos pendores caiem sobre os rios Tâmega e Beça, perto a sua confluência.
(...)
Das trutas do Beça, diz Camilo serem «trutas velhas de cabelos brancos» e ainda que elas eram «as maiores trutas dos córregos, riquíssimos de Portugal».
(...)
Mas não deixa de estar lá um portal, escondido aos olhos de quem na rua passa, imprevisível na localização, nas proporções desmesuradas, e também mesmo na ornamentação, que não tendo a riqueza hiperbolizada de Camilo, é, mesmo assim, o melhor espécime de portal magestoso entre nós existente.
(...)
Dentro, a casa da moradia, é, como diz Camilo, uma modesta habitação de lavradores remediados.
(...)
Porque não teria prosseguido aquela obra magestosa?
Roubo do dinheirinho praticado pelo padre-filho ao padre-pai como conta Camilo, ou isto não passa de ficcão novelista?
(História de uma porta - In Noites de Lamego)


(Pode ler-se mais aqui: Casa do Barroso, Aldeia de Bragadas (Ribeira de Pena) - no blogue da Casa de Camilo) 


Fim da 1ª parte deste Roteiro.

Pode ver-se mais no blogue: "Portugal___ em Mim"  
http://lucy-natureza.blogspot.com/2011/07/nos-passos-de-camilo-ribeira-de-pena.html

(Continua no post seguinte)

4 de julho de 2011

Maria Moisés: Enredos do Coração




Maria Moisés de Camilo Castelo Branco: Enredos do Coração

A fábula novelesca de Maria Moisés, de Camilo Castelo Branco configura uma típica novela sentimental, mas ao contrário do Amor de Perdição singulariza-se por dosear a mundividência romântica com uma atenção a elementos realistas. Digamos, portanto, que se trata de uma novela passional (sobretudo na 1ª Parte), equilibrada por um realismo temperado e tipicamente camiliano. Dividindo a novela em duas partes, Camilo salienta, de modo bem vincado, como veremos, dois percursos existenciais bem diferentes, mas nem por isso menos complementares: primeiro, o narrador camiliano apresenta-nos a história de Josefa da Lage; depois, com a trágica morte desta, narra-nos a vida de sua filha, Maria Moisés. 

Vejamos, mais detidamente, os eventos que preenchem cada uma das partes.

• História: duas vidas e um segredo

Assim, na 1ª Parte da narrativa, assistimos ao trágico desfecho dos amores contrariados dum jovem cadete de cavalaria (António de Queirós), filho dum orgulhoso fidalgo de Cimo de Vila, por uma simples "rapariga de baixa condição", da aldeia de Santo Aleixo. É uma paixão súbita, que começa a desenvolver-se num cenário campestre e idílico, a paisagem verde e arborizada da Ínsua, uma espécie de Ilha dos Amores. Amadurece em alguns poucos meses do Verão e Outono de 1812, levando os amantes a enfrentar os obstáculos que, entretanto, se interpõem à sua paixão, personificados no orgulho desdenhoso do pai de António, Cristóvão de Queirós e Meneses.
Recordemos, neste contexto de oposição ao amor dos dois jovens, a cena em que o austero pai procura contrariar os desígnios do coração, impondo outra escolha para um casamento mais conveniente com a condição social do jovem morgado. Repare-se na típica reacção de António, própria dos inflamados amantes camilianos – ousando enfrentar e desafiar a autoridade paterna, em nome da religião do Amor que abraçou de alma e coração. Influente, o pai não olha a meios para executar os seus desígnios.
Relembremos, então, uma das cenas mais típicas da ficção camiliana:
– Escolhi-te mulher – disse Cristóvão. – É ainda tua parenta por Meneses. Não é herdeira; mas o irmão morgado está héctico, e o segundogénito é aleijado e incapaz para o matrimónio. Virá ela portanto a herdar os vínculos. É preciso que a visites hoje comigo.
– Meu pai – respondeu António com respeitosa serenidade – pode V.ª S.ª dispor da minha vida; mas do meu coração já eu dispus. Ou hei-de casar com uma rapariga de baixa condição a quem prometi, ou não casarei nunca.
O velho pôs a mão convulsa nos copos do espadim, arquejou largo espaço, e disse:
– Duvido que você seja meu filho. Proíbo-lhe que se assine Queirós de Meneses. Adopte o apelido de algum dos meus lacaios.
António levantou o rosto e redarguiu:
– Não se ultraja assim a memória de minha mãe.
O velho nutava entre a cólera e a vergonha. Estendeu o braço, e apontou-lhe a porta, rugindo:
– Espere as minhas ordens no seu quarto.
Ao outro dia, um mandado da regência ao intendente-geral da Policia ordenava a prisão do cadete de cavalaria António de Queirós e Meneses no Limoeiro" (pp. 135-7).

A 2ª Parte da novela começa exactamente no ponto em que termina a história da 1ª Parte. É constituída pela história da filha enjeitada, a criança encontrada no rio pelo pescador Francisco Bragadas. Baptizada com o nome de Maria Moisés, é criada na quinta de Santa Eulália. Recorde-se, marginalmente, que o motivo temático do filho(a) enjeitado(a) é relativamente frequente na ficção camiliana, sendo origem das romanescas cenas do reencontro ou reconhecimento, como irá acontecer na derradeira cena de Maria Moisés.
Recolhida pelo caseiro da quinta de santa Eulália, a jovem Maria Moisés é adoptada pelos fidalgos de Santa Eulália e educada sob a orientação do bondoso Cónego João Correia Botelho, acabando por herdar a quinta de Santa Eulália. Aos 18 anos, manifesta a vocação da sua vida: "criar meninos enjeitados!", isto é, dedicar-se a uma vida de amor caridoso pelos mais pobres e abandonados, como ela o fora. Paulatinamente, lá vão chegando as crianças, que ela alimenta e educa com desvelos maternais e uma generosidade quase sem limites, "porque o prazer de dar é muito maior que o de receber". Parece que o seu nome, de inspiração bíblico-religiosa, se revelava um elemento predestinador deste "plano caritativo" (p. 181).
Por fim, passados quase quarenta anos, e como uma manifestação da Providência divina (que aqui agracia, e não castiga), surge a cena do encontro entre pai e filha ou reconhecimento, cena que na tragédia grega se designava por anagnórisis. O amargurado emigrante brasileiro abraça a filha perdida, num sublime lance que a ficção romanesca de Camilo tradicionalmente explora:
"(...) E, tomando as mãos de Maria, prosseguiu: – Se eu morrer debaixo da luz dos teus olhos, Deus me chamará a si, não pelos meus merecimentos, mas pelas virtudes de minha filha. Pedirás então a Deus por teu pai, Maria?
– Eu! Jesus! Eu sua filha! – clamou ela, pondo as mãos convulsas, quando ele a beijava na fronte.
Maria caíu de joelhos, pendente dos braços do pai; e os velhos e as crianças ajoelharam também, trementes e extáticos, sob a faísca eléctrica daquele sublime lance" (p. 208).

Do que até aqui se foi dizendo, sobressai o sentido edificante assumido pela novela Maria Moisés. A dupla história duma mãe que se perde, ao entregar-se à paixão, e duma filha enjeitada que redime o pecado dos pais, através duma virtuosa vocação para a caridade, constitui-se naturalmente como fábula narrativa com uma moralidade manifesta. Isso mesmo foi assinalado pela crítica desta novela:
"O mesmo sentido edificante, de timbre cristão, distingue a segunda parte de Maria Moisés. A heroína é um símbolo vivo da caridade (...); a enjeitada, dedica a vida a outros enjeitados, o que é um modo de saldar uma dívida pessoal de gratidão (...). António de Queirós, por seu turno, vem reparar o mal feito a Josefa proporcionando a Maria Moisés, sua filha, as condições para cumprir a sua missão e o seu sonho" (1).

• Espaço: colorido minhoto
Como se depreende do título geral da colectânea (Novelas do Minho) que a novela Maria Moisés integra, estamos imersos em plena paisagem minhota embora geograficamente próximos da província de Trás-os-Montes. Sem cair em estéreis biografismos, não podemos esquecer que é uma região que o próprio escritor conhece bem, desde os tempos da infância e adolescência. Assim, a acção da novela Maria Moisés decorre num espaço geográfico relativamente limitado, uma vez que se centra numa pequena região, mais concretamente no pequeno concelho de Ribeira de Pena, junto ao rio Tâmega:

• 1ª Parte: freguesia de Santo Aleixo de além-Tâmega, com a particularização de vários lugares ou propriedades, como: Ínsua, Cangosta do Estêvão, Várzea das Poldras, Agra da Cruz, bravio do Pimenta, campo da Lagoa, quinta do Enxertado, Granja, Cimo de Vila, Cavês, encruzilhada do Mato, etc.

• 2ª Parte: freguesia de São Salvador de aquém-Tâmega (freguesia sede do conselho), mencionando também lugares como: Quinta de Santa Eulália, Quinta do Enxertado, casa da Temporã, etc. (além dos vários lugares referidos na 1ª Parte). 

Fonte: 
http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/letras/candid10.htm

Obra digital, aqui: 
http://web.portoeditora.pt/bdigital/pdf/NTSITE99_MariaMoises.pdf



Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Casa de Camilo - Noites de Insónia

«As “Noites de Insónia” têm como finalidade a descoberta de formas diferentes de aproximação aos textos camilianos, através da discussão em grupo de determinadas obras, escolhidas previamente. Do gosto pela leitura e da conversa sobre o que se lê, da troca de opiniões, de pontos de vista, de associações, procuraremos criar cumplicidades e desenvolver o gosto por uma leitura mais activa e partilhada da obra do romancista de Seide.» http://camilocastelobranco.org/index2.php?co=569&tp=6&cop=260&LG=0&mop=604&it=evento_lst Coordenadores: 2009 - Professor Cândido Oliveira Martins - Universidade Católica de Braga 2010 - Professor Sérgio Guimarães de Sousa - Universidade do Minho 2011 - Prof. João Paulo Braga

Encontros 2012 - Professor Sérgio

15 Fevereiro - "Memórias do Cárcere" - Discurso Preliminar
7 Março - "Memórias do Cárcere" - Do I capítulo ao V

Encontros 2011 - Professor Paulo

2011 "A Viúva do Enforcado" - 16 de Novembro - 21:30 "A Filha do Arcediago" - 19 de Outubro - 21:30 "As Aventuras de Basílio Enxertado" - 21 de Setembro - 21:30 "Maria Moisés" - 9 de Julho - 21:30 "O Cego de Landim" - 15 de Junho - 21:30 "O Retrato de Ricardina" - 4 de Maio - 21:30 "A Corja" - 6 de Abril - 21:30 "Eusébio Macário" - 9 de Março - 21:30 "A Sereia" - 9 de Fevereiro - 21:30

Encontros 2010 - Professor Sérgio

"Memórias de um suicida" - 30 de Novembro - 20h "O que fazem Mulheres" - 6 de Outubro - 21:30h "O Amor de Perdição" - 16 Junho - 20h "O Senhor do Paço de Ninães" - 21 Abril - 21h30 "Anátema" - 24 Março - 21h30 "A Bruxa de Monte Córdova" - 24 Fevereiro - 21h30 "A Queda dum Anjo" - 20 Janeiro - 21h30

Encontros 2009 - Professor Cândido

"Estrelas Propícias" - 11 Novembro - 20h "A Brasileira de Prazins" - 21 Outubro - 21h00 "Novelas do Minho" - 16 Setembro - 21h30 "Coração, Cabeça e Estômago" - 17 Junho - 21h30 "Vinte horas de Liteira" - 22 Maio - 21h30 "Memórias do Cárcere" - 30 Abril - 21h30