Casa de Camilo

Camilo Castelo Branco

Camilo Castelo Branco
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13 de abril de 2011

Eusébio Macário



Autoria: Camilo Castelo Branco

Data de publicação: 1879

Local de publicação: Porto



Narrativa de Camilo Castelo Branco publicada em 1879. Tal data e o seu subtítulo, História Natural e Social de Uma Família nos Tempos dos Cabrais, desde logo nos transmitem pistas sobre o contexto sociocultural do texto em questão. Quando pensamos nos citados Tempos dos Cabrais, pensamos no período de amolecimento político que sucedeu à violência da guerra civil (1828-1834).

Talvez o acontecimento político mais marcante deste período tenha sucedido em 1849, o chamado «ano da caleche»: Costa Cabral, ministro do Reino, recebera de um negociante uma caleche em troca de uma comenda. Vivia-se então uma fase de estabilidade marcada por contiguidade ideológica e programática das fações partidárias, circunstância que favoreceu o rotativismo bipartidário, mecanismo típico do liberalismo parlamentar inglês. A maioria da população, sem consciência política e independência económica, era manipulada pelos caciques, que pagavam os votos com promessas de nomeações, proteções e outros favores. Por esta altura, este mundo estava acolhendo um outro modelo estrangeiro (o Naturalismo, que, oposto diretamente aos arroubos espirituais e sentimentalistas dos românticos, se torna conhecido pelo privilégio da matéria, da cor, da sensação, não recuando perante a trivialidade e a brutalidade da humanidade média e baça que analisa através de processos «já se vê, científicos, o estudo dos meios, a orientação das ideias pela fatalidade geográfica, as incoercíveis leis fisiológicas e climatéricas do temperamento e da temperatura, o despotismo do sangue, a tirania dos nervos, a questão das raças, a etologia, a hereditariedade inconsciente dos aleijões de família, tudo, o diabo!» («Advertência» de Eusébio Macário).

Neste sentido, o subtítulo em questão parece indiciar o enquadramento da sua narrativa nesta corrente literária, sobretudo se recordarmos, com Camilo, na sua «Nota Preambular», o título e subtítulo da série Les Rougon Macquart: Histoire Naturelle et Sociale d'une Famille sous le Second Empire de Emile Zola, expoente máximo de tal corrente. Apercebendo-se do desabamento do mundo antigo, Camilo, «romântico particularmente sensível à realidade e ao realismo impiedosos da sociedade» (no dizer de Eduardo Lourenço), encara este mundo submetido ao reino do dinheiro através da paródia do estilo da escola naturalista: construções francesas, abuso do imperfeito descritivo, acumulação de adjetivos, pormenor plástico.

A ação de Eusébio Macário adequa-se perfeitamente ao espírito político e cultural deste tempo com mais fisiologia do que sentimento. Eusébio Macário, futuro Cavaleiro da Ordem de Cristo, farmacêutico, cabralista caciquista e viúvo de uma personagem feminina apenas referida como «a Canelas», famosa adúltera, procura sobreviver e velar pela honra dos filhos, José Fístula, ex-seminarista, especialista em fados, farmacêutico temporário, aspirante a cirurgião e amante de senhoras casadas, e Custódia, «rapariga pimpona» e donzela casadoira. Ao destino desta família entrelaça-se aquele da família do «brasileiro» Bento Montalegre, emigrante que se «vendera a uma viúva decrépita, rica e devassa, que lhe deixara moagens, fazendas, o casco da sua fortuna», comendador e futuro «barão do Rabaçal», irmão de Felícia, «mulherança frescalhona, de uma coloração sanguínea, anafada, ancas salientes, de trinta e cinco anos», que vivia maritalmente com Abade Justino, mulherengo sem ideal, «estômago com algum latim e muitas féculas». A intriga desenvolve-se com a chegada de Bento, cuja riqueza lhe compra os títulos citados, uma esposa (Custódia), e um marido (José Fístula) para Felícia, que abandona o padre. Este, por sua vez, não demora a encontrar uma nova e prendada companheira.

Porém, à sensação de festa inerente à paródia responde o sentimento de náusea e vazio do seu reverso, no qual está inscrita a imagem de «filas cerradas de pinheiros lá em cima nas cumeadas», lembrando «esquadrões de gigantes, pasmados, a olharem para nós, burlescos pigmeus, que andamos cá em baixo a esfervilhar como bichinhos revoltosos nas enormes podridões verdoengas do planeta». Neste sentido, a obra acaba por explorar a miséria estrutural da vida humana, incapaz de se libertar da matéria que lhe está na base.


Como referenciar este artigo:

Eusébio Macário. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2011. [Consult. 2011-04-13].

 

8 de abril de 2011

O relógio do boticário Eusébio Macário

A descrição do relógio da Casa de Camilo, no romance "Eusébio Macário":


«Havia na botica um relógio de parede, nacional, datado de 1781, feito de grandes toros de carvalho e muita ferraria. Os pesos, quando subiam, rangiam o estridor de um picar de amarras das velhas naus. Dava-se-lhe corda como quem tira um balde da cisterna. Por debaixo da triplicada cornija do mostrador havia uma medalha com uma dama cor de laranja, vestida de vermelhão, decotada, com uma romeira e uma pescoceira, crassa e grossa de vaca barrosã, penteada à Pompadour, com uma réstia de pedras brancas a enastrar-lhe as tranças. Cada olho era maior que a boca, de um vermelho de ginja. Ela tinha a mão esquerda escorrida no regaço, com os dedos engelhados e aduncos como um pé de perua morta; o braço direito estava no ar, hirto, com um ramalho de flores que parecia uma vassoura de hidrângeas. Este relógio badalara três horas, que soaram ríspidas como as pancadas vibrantes, cavas, das caldeiras da Hécate de Shakespeare.»




Camilo Castelo Banco, Eusébio Macário,

Porto, Lello & Irmão Editores, s/d

2 de abril de 2011

O Amor e a Pobreza (A Sereia)



O amor dá-se mal nas casas ameaçadas de pobreza. É como os ratos que pressentem as ruínas dos pardieiros em que moram, e retiram-se. A comparação é por demais plebeia em matérias tão afidalgadas como são estas do coração: todavia, imolemos a polidez à verdade.

O amor é de condição mui desprendida dumas baixezas que nós raramente chamamos almoço, jantar, ceia, aconchego, comodidades, e guarda-roupa abundante. Assim que ele dá tento de que o seu vizinho, chamado espírito, cogita distraído naquelas coisas vulgares, começa a enfastiar-se, a franzir o sobrolho, a estorcer-se a ver por onde há-de fugir.

O amor quer o monopólio das faculdades da alma. Se o intelecto o desdenha para se exercitar em estudos graves, o caprichoso arrufa-se, e vinga-se dos sábios fugindo para os corações dos tolos, que, tal qual vez, se senhoreiam dos espíritos das mulheres dos sábios, desastre de que o sapientíssimo Marco Aurélio se queixava numa carta à sua muito desonesta mulher Faustina. Cito um imperador para consolação da gente meã, ignorante dos iminentes camaradas de infortúnio, que a história lhe oferece.

Quando este despeito se dá com as inteligências absorvidas pela paixão do saber, que fará com os ânimos preocupados do prosaísmo da receita e despesa?

Está este lameiral chamado terra infamado de misérias que fazem chorar. Mulheres sem honra nem pão; criancinhas sem mãe nem cama; homens sem coração nem remorsos; lajes salpicadas de sangue de desesperados que se matam; bancas de anfiteatros cobertas de cabeças separadas dos troncos; hospitais que sorvem podridão e revessam cadáveres. A gente vê isto, e passa. Não se inquirem causas.

A filosofia viu tudo, e disse 'corrupção congenial da humanidade'. A religião viu tudo, e disse: 'Caridade e misericórdia'. Os poetas viram e disseram : 'Manon Lescaut, Cláudio Gueux, Margarida Gauthier' ...

In 'A Sereia'
Camilo Castelo Branco

http://divulgarcamilo.blogs.sapo.pt/5964.html

16 de março de 2011

MARIAS DA FONTE


(Páginas de 20 a 22)

Sobre a personalidade única, singular e distincta de Maria da Fonte entre as mulheres amotinadas no concelho de Vieira, o depoimento do snr. padre Casimiro deve ser o primeiro n'este processo de investigação.

Refere o minucioso historiador que um sapateiro de Simães, da freguezia de Fonte Arcada, o avisara de que lhe maquinavam a morte; e, na mesma occasião, se mostrara receoso de que lhe matassem sua irman Maria Angelina, a quem chamavam Maria da Fonte, e fora processada e pronunciada nos tumultos da Povoa de Lanhoso.
Perguntou-lhe padre Casimiro o que fizera ella para ganhar tal nome. — Nada, respondeu lo sapateiro; apenas acompanhara as outras mulheres que arrombaram a cadeia da Povoa para soltar as prezas que primeiramente se levantaram contra a Junta de Saúde. Insistiu o padre emquerer saber a causa por que a distinguiam das outras. Explicou o artista que Maria Angelina se estremava das mais por estar vestida de vermelho ; e, por isso, o empregado, que fizera a lista das amotinadas, a pozéra na cabeça do rol, com tal nome, por não lh'o querer dizer alguém que elle interrogara.
Perguntou o padre Casimiro se havia alguma fonte á beira da casa de Maria. Que não. Chamavam-lhe da Fonte por ser da freguezia de Fonte Arcada. O interrogador ficou satisfeito, acreditou e felicitou o sapateiro por sua irman ter conseguido nomeada tão distincta.
E, passados mezes, indo vêr a Maria da Fonte, encontrou uma mulher trigueira, de estatura mediana, desembaraçada, robusta, entre vinte e trinta annos.
D'ahi a pouco, terminada a revolução promovida pelos setembristas, uma doceira de Valbom, nas visinhanças de Lanhoso, andava pelas feiras e romarias inculcando-se a Maria da Fonte.
Padre Casimiro, estranhando naturalmente o duplicado, pediu informações ao abbade de S. Gens de Calvos, parocho e visinho da doceira. O abbade confirmou ser ella a celebre Maria da Fonte.
Não obstante, o nosso auctor, sem apoucar os serviços da doceira — pelo contrario, os encarece — entende que a verdadeira é a de Simães, por ser de Fonte Arcada, e não a outra, visto que o nome lhe não foi dado por ter prestado maiores serviços, aliás de direito lhe pertenceria.
Acrescenta o monographo da revolução de 46 que Maria Angelina ou da Fronte, morrera, anos depois, em Villa Nova de Famalicão ou por ali perto.
Quanto ao óbito de Maria Angelina foi o snr. padre Casimiro incorrectamente informado. É certo ter vivido e morrido em Famalicão uma endiabrada mulher, volteira e espancadora a quem chamaram Maria da Fonte por analogia de bravura com a façanhosa revolucionaria do Alto Minho.

Em differentes terras do paiz se chamaram antonomasticamente Marias da Fonte as mulheres valentes e decididas.

Camilo Castelo Branco
Maria da Fonte; a proposito dos Apontamentos para a historia da revolução do Minho em 1846, publicados recentemente pelo reverendo padre Casimiro, celebrado chefe da insurreição popular (1901)

Pode ler "online":  http://www.archive.org/stream/mariadafonteprop00castuoft#page/n5/mode/2up
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Casa de Camilo - Noites de Insónia

«As “Noites de Insónia” têm como finalidade a descoberta de formas diferentes de aproximação aos textos camilianos, através da discussão em grupo de determinadas obras, escolhidas previamente. Do gosto pela leitura e da conversa sobre o que se lê, da troca de opiniões, de pontos de vista, de associações, procuraremos criar cumplicidades e desenvolver o gosto por uma leitura mais activa e partilhada da obra do romancista de Seide.» http://camilocastelobranco.org/index2.php?co=569&tp=6&cop=260&LG=0&mop=604&it=evento_lst Coordenadores: 2009 - Professor Cândido Oliveira Martins - Universidade Católica de Braga 2010 - Professor Sérgio Guimarães de Sousa - Universidade do Minho 2011 - Prof. João Paulo Braga

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