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Falar da vida depois da morte e, mais propriamente, de Camilo Castelo Branco visto pela óptica do “Além”, pode ter a função do “desassombramento” da sua alma, do levantar do véu das sombras que sempre pairaram sobre a sua pessoa. O suicídio é tabu, não é aceite pelo mundo religioso cristão, é a rejeição do ser que não aceitou a vida, ainda que este tenha sido levado a um extremo de sofrimento e intolerância do viver.
“Memórias de um suicida”, o livro de doutrina espírita que pretende elucidar sobre os padecimentos após o suicídio e que não acabam na morte física, nem no desaparecimento de sensações do espírito e da alma, mas na continuação de um sentir ainda mais amplo das dores e de um padecimento mais atroz. Assim trata o livro, de um trajecto que vai desde o mergulho na mais profunda dor e escuridão, passando pelo lento tratamento de reedificação da alma despedaçada, até à redenção e auto-perdão, culminando na reencarnação seguinte, para expiação.
Mas, Camilo Castelo Branco visto nesta perspectiva gera sérias dúvidas, pois trata-se de uma figura pública, bem conhecida do mundo literário, do mundo racional, culturalmente céptico em relação a estes assuntos espirituais do além. Será que foi mesmo Camilo que ditou estas mensagens de vida depois da morte, traduzidas por uma médium espírita?
Por este motivo se reuniram os leitores de Camilo, na Casa de Seide, onde a proximidade de espaço com o escritor, o panorama do últimos momentos ali vividos, nos deixou reflectir e aprofundar um pouco mais o assunto de vida após a morte. Um tema de todo polémico, pois traz novidades de pensamentos, reacções de rejeição/aceitação a fenómenos conhecidos entre nós de paranormais - apesar de o único som “estranho” ter sido o bater das horas do relógio da casa, que, Camilo, certamente se fartou de ouvir em longas noites de insónia…
O professor Sérgio, que preside às reuniões, fez-se acompanhar de livros de autores estrangeiros que relatam testemunhos de mortes clínicas, descrevendo sensações depois do abandono do corpo físico. Alguns dos presentes também se atreveram a contar certos episódios quotidianos mais ou menos “estranhos” à normalidade do entendimento humano. Convidado, foi também, um senhor praticante da doutrina espírita, conhecedor de fenómenos que, segundo ele, são “normais” e não “paranormais”, como vulgarmente são chamados, por fazerem parte ainda do desconhecimento humano. E no meio de tão animada discussão, o relógio voltou a bater as horas: meia-noite, hora de deixar os espíritos em paz!
Foi o finalizar da última noite de Novembro 2010, uma noite gélida e chuvosa, só aquecida pelo calor humano de um grupo de 18 participantes, que a despeito do mau tempo, de cadeira debaixo do braço fez a travessia do Centro de Estudos Camilianos, onde antes houvera um “jantar-bufet”, até ao último andar da Casa de Camilo, ocupando quase todo o espaço do escritório onde o escritor passara as suas noites assombradas, certamente ouvindo o vento a uivar e sentindo a pena que lhe corria leve pelo dedos… talvez carregada de pensamentos tenebrosos que o teriam levado ao suicídio.
Mas a nossa noite não acabou tenebrosa, ainda que, a despedida do professor Sérgio, desta temporada camiliana, tenha sido verdadeiro motivo de desolação geral, mas os apelos à sua futura “reencarnação”, neste mesmo espaço, foram veementes, convictos que estamos que a sua presença se fará sentir fisicamente, preenchendo a nossa tertúlia com os seus habituais acessos espirituosos, predispondo o grupo para uma maior aproximação entre si e ao espírito das grandiosas obras camilianas.
O mais sincero agradecimento a ambos!
Lucília Ramos
As fotos dos momentos vividos em 30 de Novembro de 2010:


