Casa de Camilo

Camilo Castelo Branco

Camilo Castelo Branco
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Seide Saúda-vos!

8 de julho de 2009

Coração, Cabeça e Estômago - Bibliografia (A. A. Teixeira de Vasconcelos)

Edições Caixotim - (p. 37 - 39 - 41 - 43 )

(...)
Pois apesar da incontestável autoridade do grande satírico português, é raro, raríssimo que homens do mesmo ofício se louvem ou se critiquem. Vai cada qual no seu caminho, e os outros que apreciem como lhes parecer. É certo que às vezes se encontram e se cortejam com benevolência. Tem acontecido, mas por acaso.
(...)
A obra do Sr.Camilo Castelo Branco tem três partes, como revela o título. A primeira diz respeito ao coração de Silvestre da Silva, que não era dos piores. A segunda trata da cabeça do tal sujeito, que não seria de invejar. A terceira e última, é como o estômago, víscera infeliz desde a malfadada maçã do paraíso até às alicantinas gastronómicas das respeitáveis casas de pasto, que honram a pátria e o século.
(...)
Há dois capítulos nesta primeira parte, dos quais um se intitula A mulher que o mundo respeita, e o outro A mulher que o mundo despreza. Já se vê que o mundo respeita uma desaforadíssima criatura, e despreza uma infeliz, lançada por mão alheia no abismo da miséria. Tem-se visto.
O mundo respeita muito o dinheiro e a grandeza. Não lhes pergunta o sexo. Se acertam cair em homem, viva o homem, ainda que seja o mais descarado malandro. Se encarnam em mulher, viva a mulher, ainda que seja a mais deslavada marafona. Querem saber a causa? Perguntem-na ao mundo. O Sr. Camilo afiança a existência do facto, e eu ofereço-me para testemunha abonatória.
(...)
À cabeça do Sr. Silvestre Silva faltava principalmente juízo, e por isso, principiou em correspondente do Periódico dos Pobres do Porto, e acabou na cadeia por sentença do meretíssimo juiz da polícia correcional.
Pois vai-se meter com a vida do Sr. Anselmo Sanches, advogado mais desvergonhadamente honrado dos auditórios do norte! Que lhe importava ele a pureza de costumes do nosso querido doutor? Por isso malhou com os ossos na Relação, e foi muito bem feito.
Quantos Anselmos Sanches não há por esse mundo vivendo muito desforadamente com geral reputação de santinhos! E chovem-lhes as procurações no escritório, e em casa convites para jantar e para baile, à mistura com presentes ricos e recados das meninas nas cartas do pai!
(...)
Encantou-me a terceira parte do romance, não pelo desenlace filosófico, mas pela admirável fidelidade com que o Sr. Camilo Castelo Branco copiou da natureza as cenas e linguagem da casa do sargento-mor de Soutelo. Tomásia na cozinha, na eira, a coser, à mesa, na despedida, e na volta da igreja no dia do casamento, não tem rival em nenhum romance português que eu conheça.
(...)´
É muito difícil pintar bem os costumes portugueses. A primeira dificuldade está em conhecê-los. Cumpre ir estudá-los nas terras mais afastadas do sertão, onde o chá é remédio para dores de barriga...
(...)
O Sr. Camilo Castelo Branco é o nosso primeiro romancista e há-de ser por certo, se o quiser ser, um dos mais discretos prosadores portugueses. O voto não admite suspeição, porque é de homem do mesmo ofício.
24 de Outubro de 1862 - A. A. Teixeira de Vasconcelos
In Coração, Cabeça e Estômago - Camilo Castelo Branco

28 de junho de 2009

3º Encontro: Coração, Cabeça e Estômago

No dia 17 de Maio, pelas 21:30h, reuniram-se pela terceira vez, os leitores de Camilo Castelo Branco, para mais uma reflexão sobre o escritor e a sua obra:
«Coração, Cabeça e Estômago»
«…Esta novela pode ainda ser lida como uma autobiografia de Camilo Castelo Branco, ressalvando sempre a noção de que Camilo não teve apenas uma vida mas muitas, cada uma vivida por si só com sinceridade e com intensidade. Se atendermos ao amor, e relembrando-o na vida do autor, basta ter em conta as “sucessivas” mulheres de Camilo que, sempre à conta desse sentimento sublime, ele foi deixando para trás em nome da deambulação sentimental, provavelmente sem nunca ter querido admitir que praticava, à luz dos seus próprios critérios, o crime masculino por excelência, seduzir e abandonar a amada.

…Esta novela representa, ainda, a ambivalência da vida humana na sua busca desesperada de sentido e de propósito definitivos de modo a que a existência seja percebida como valendo a pena ser vivida. O que vai acontecendo, no entanto, tem a força de uma lei imprevista, que bane de uma assentada as melhores intenções e que conduz o ser humano a paragens nunca antes imaginadas, assim como o modo como as coisas e os seres são percebidos é apenas, e sempre, uma parte da verdade.

Como comenta Silvestre da Silva, o narrador-protagonista desta novela, a propósito da percepção do seu comportamento no amor por parte dos outros:
“Era isto o que se dizia; mas a verdade é outra.”
- Se a vida se torna a obra, a própria obra se torna a vida.
…Que tenha sido Camilo Castelo Branco o autor da novela que nos dá a ler de modo tão cru esta revelação, faz-nos crer que é por si mesmo um traço fora do comum (tocando as raias da invenção genial) de um autor proteiforme, inconformista, intuitivo, com uma capacidade de ironia como visão do mundo, da existência humana e da palavra romanesca, para além do facilmente concebível.»
Do Prefácio de Eunice Cabral

In Cabeça, Coração e Estômago - Camilo Castelo Branco


22 de junho de 2009

Epílogo - Vinte Horas de Liteira

Ontem, 27 de Outubro deste ano de 1864, quando eu, à conta da pequenez do livro, cuidava em alinhavar outra história, que o meu amigo provavelmente me não contou, anunciou-se-me um sujeito de botas de água e cobrejão.
Era António Joaquim.
Haviam decorrido cinco anos sem nos vermos.
- Como estás nutrido! - exclamou ele.
- É a gordura da felicidade! - disse eu, apalpando os perigalhos da barba para me convencer da minha nutrição - E tu? que nediez! que elefante de força e saúde! És o emblema do Minho em carne; em osso não digo, porque tu deixaste de pertencer aos animais vertebrados: és um molusco inteligente, António! Como ficou a tua família? Os teus rapazes? Os teus sócios da arca santa em que mareias sobre este cataclismo de corrupção universal?
- Estão todos bons. A única pessoa corrompida da arca sou eu.
- Tu!'
- Eu, sim, desde que involuntariamente dei direito a que o meu nome se leia em vinte e tantos folhetins do Comércio do Porto. A pureza da minha vida e costumes quem ma dava era a obscuridade. Enquanto o mundo me desconhecesse, sabia eu que o meu esconderijo seria defeso à curiosidade malévola e pestilencial; porém, desde que me fizeste viver e discorrer, e parvoejar, como qualquer sócio deste funesto clube, chamado a sociedade, a minha pessoa, o eu subjectivo, deixou de ser eu, e passou a ser tu. Quero dizer que aniquilaste a minha individualidade típica: consubstanciaste-me na matéria universa; e contaminaste-me da peste geral.
Foste ingrato a quem te deu a liteira para vinte horas!

(...)

In Vinte Horas de Liteira - C.C.B.

20 de junho de 2009

Conclusão - Vinte Horas de Liteira

(p. 191)



(...)

Aqui tens o que eu chamo organização das cousas.

O que querias tu que ele se fizesse? Albardeiro? Cabeleireiro? Acendedor de lampiões? Peço à tua razão ilustrada uma resposta.

- Se ele tinha inteligência - disse António Joaquim - fizesse-se escritor.

Ouvido isto, benzi-me, pus os olhos no céu, e disse:

- A Providência divina houve por bem endoudecê-lo pelos processos ordinários da loucura vulgar, antes de lhe incutir a loucura extraordinária de fazer-se escritor em Portugal. Que paradoxo! A inteligência do teu amigo não lhe abriu as portas do funcionalismo público? Não: pois bem, faça-se dessa inteligência alguma cousa! Um escritor - o derradeiro mester em que pode ser aproveitado esse raio luminoso do coração de Deus!...

Ó meu amigo, o máximo favor que um português pode receber do Céu, é indoudecer, na véspera de fazer-se escritor público!

(...)

In Vinte Horas de Liteira - C.C.B.

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Casa de Camilo - Noites de Insónia

«As “Noites de Insónia” têm como finalidade a descoberta de formas diferentes de aproximação aos textos camilianos, através da discussão em grupo de determinadas obras, escolhidas previamente. Do gosto pela leitura e da conversa sobre o que se lê, da troca de opiniões, de pontos de vista, de associações, procuraremos criar cumplicidades e desenvolver o gosto por uma leitura mais activa e partilhada da obra do romancista de Seide.» http://camilocastelobranco.org/index2.php?co=569&tp=6&cop=260&LG=0&mop=604&it=evento_lst Coordenadores: 2009 - Professor Cândido Oliveira Martins - Universidade Católica de Braga 2010 - Professor Sérgio Guimarães de Sousa - Universidade do Minho 2011 - Prof. João Paulo Braga

Encontros 2012 - Professor Sérgio

15 Fevereiro - "Memórias do Cárcere" - Discurso Preliminar
7 Março - "Memórias do Cárcere" - Do I capítulo ao V

Encontros 2011 - Professor Paulo

2011 "A Viúva do Enforcado" - 16 de Novembro - 21:30 "A Filha do Arcediago" - 19 de Outubro - 21:30 "As Aventuras de Basílio Enxertado" - 21 de Setembro - 21:30 "Maria Moisés" - 9 de Julho - 21:30 "O Cego de Landim" - 15 de Junho - 21:30 "O Retrato de Ricardina" - 4 de Maio - 21:30 "A Corja" - 6 de Abril - 21:30 "Eusébio Macário" - 9 de Março - 21:30 "A Sereia" - 9 de Fevereiro - 21:30

Encontros 2010 - Professor Sérgio

"Memórias de um suicida" - 30 de Novembro - 20h "O que fazem Mulheres" - 6 de Outubro - 21:30h "O Amor de Perdição" - 16 Junho - 20h "O Senhor do Paço de Ninães" - 21 Abril - 21h30 "Anátema" - 24 Março - 21h30 "A Bruxa de Monte Córdova" - 24 Fevereiro - 21h30 "A Queda dum Anjo" - 20 Janeiro - 21h30

Encontros 2009 - Professor Cândido

"Estrelas Propícias" - 11 Novembro - 20h "A Brasileira de Prazins" - 21 Outubro - 21h00 "Novelas do Minho" - 16 Setembro - 21h30 "Coração, Cabeça e Estômago" - 17 Junho - 21h30 "Vinte horas de Liteira" - 22 Maio - 21h30 "Memórias do Cárcere" - 30 Abril - 21h30