Casa de Camilo

Camilo Castelo Branco

Camilo Castelo Branco
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Seide Saúda-vos!

22 de junho de 2009

Epílogo - Vinte Horas de Liteira

Ontem, 27 de Outubro deste ano de 1864, quando eu, à conta da pequenez do livro, cuidava em alinhavar outra história, que o meu amigo provavelmente me não contou, anunciou-se-me um sujeito de botas de água e cobrejão.
Era António Joaquim.
Haviam decorrido cinco anos sem nos vermos.
- Como estás nutrido! - exclamou ele.
- É a gordura da felicidade! - disse eu, apalpando os perigalhos da barba para me convencer da minha nutrição - E tu? que nediez! que elefante de força e saúde! És o emblema do Minho em carne; em osso não digo, porque tu deixaste de pertencer aos animais vertebrados: és um molusco inteligente, António! Como ficou a tua família? Os teus rapazes? Os teus sócios da arca santa em que mareias sobre este cataclismo de corrupção universal?
- Estão todos bons. A única pessoa corrompida da arca sou eu.
- Tu!'
- Eu, sim, desde que involuntariamente dei direito a que o meu nome se leia em vinte e tantos folhetins do Comércio do Porto. A pureza da minha vida e costumes quem ma dava era a obscuridade. Enquanto o mundo me desconhecesse, sabia eu que o meu esconderijo seria defeso à curiosidade malévola e pestilencial; porém, desde que me fizeste viver e discorrer, e parvoejar, como qualquer sócio deste funesto clube, chamado a sociedade, a minha pessoa, o eu subjectivo, deixou de ser eu, e passou a ser tu. Quero dizer que aniquilaste a minha individualidade típica: consubstanciaste-me na matéria universa; e contaminaste-me da peste geral.
Foste ingrato a quem te deu a liteira para vinte horas!

(...)

In Vinte Horas de Liteira - C.C.B.

20 de junho de 2009

Conclusão - Vinte Horas de Liteira

(p. 191)



(...)

Aqui tens o que eu chamo organização das cousas.

O que querias tu que ele se fizesse? Albardeiro? Cabeleireiro? Acendedor de lampiões? Peço à tua razão ilustrada uma resposta.

- Se ele tinha inteligência - disse António Joaquim - fizesse-se escritor.

Ouvido isto, benzi-me, pus os olhos no céu, e disse:

- A Providência divina houve por bem endoudecê-lo pelos processos ordinários da loucura vulgar, antes de lhe incutir a loucura extraordinária de fazer-se escritor em Portugal. Que paradoxo! A inteligência do teu amigo não lhe abriu as portas do funcionalismo público? Não: pois bem, faça-se dessa inteligência alguma cousa! Um escritor - o derradeiro mester em que pode ser aproveitado esse raio luminoso do coração de Deus!...

Ó meu amigo, o máximo favor que um português pode receber do Céu, é indoudecer, na véspera de fazer-se escritor público!

(...)

In Vinte Horas de Liteira - C.C.B.

18 de junho de 2009

XVI - Amor de freira

(p. 179)

(...)

- O pouco que entendi da resposta - reflexionou António Joaquim - habilita-me a supor que Salomão já contava contigo, quando disse que o número dos tolos era infinito. É um sábio a julgar outro sábio. Agora, vamos à história, que daqui a pouco estás a salvo da liteira e de mim.
- Estás enganado! - acudi eu - Provavelmente irei ter contigo enquanto farejar no bojo da tua memória um romance inédito. Sou teu vampiro, António Joaquim! Hei-de sugar-te seis volumes da alma. Seis volumes, que serão as seis colunas do teu supedâneo no templo dos imortais!... Que fez depois teu tio? Dizias que umas pessoas tinham dó dele, e outras riam-se.
(...)

In Vinte Horas de Liteira - C.C.B.

16 de junho de 2009

XV - Os amores de Teresa

(p. 170)

(...)
- Que magnífica boiada! - disse eu. - O boi é o qudrúpede que mais se parece com um filósofo. Vê tu o passo mesurado, grave, e cadente de um boi! O olhar meditativo! A sisudeza do aspeito! O ar revelativo de um complicado trabalho intelectual que se está elaborando naquela enorme cabeça! Há grandes filósofos inquestionavelmente menos sérios e cogitativos que o boi! Decerto, sabes, amigo Joaquim, a importância social, legendária, simbólica, e mítica do boi na antiguidade.
- Não sei isso bem - disse modestamente o meu amigo; - o que sei deste prestadio animal é que a humanidade o come há muitos séculos, e que nos jantares de Cressus e Luculus apareciam bois inteiros assados, e creio que no convento de Mafra também se assavam inteiros os bois.
(...)
Teresa, quando tinha doze anos, herdou de sua madrinha dous novilhos.
(...)
In Vinte Horas de Liteira - C.C.B.
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Casa de Camilo - Noites de Insónia

«As “Noites de Insónia” têm como finalidade a descoberta de formas diferentes de aproximação aos textos camilianos, através da discussão em grupo de determinadas obras, escolhidas previamente. Do gosto pela leitura e da conversa sobre o que se lê, da troca de opiniões, de pontos de vista, de associações, procuraremos criar cumplicidades e desenvolver o gosto por uma leitura mais activa e partilhada da obra do romancista de Seide.» http://camilocastelobranco.org/index2.php?co=569&tp=6&cop=260&LG=0&mop=604&it=evento_lst Coordenadores: 2009 - Professor Cândido Oliveira Martins - Universidade Católica de Braga 2010 - Professor Sérgio Guimarães de Sousa - Universidade do Minho 2011 - Prof. João Paulo Braga

Encontros 2012 - Professor Sérgio

15 Fevereiro - "Memórias do Cárcere" - Discurso Preliminar
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"Memórias de um suicida" - 30 de Novembro - 20h "O que fazem Mulheres" - 6 de Outubro - 21:30h "O Amor de Perdição" - 16 Junho - 20h "O Senhor do Paço de Ninães" - 21 Abril - 21h30 "Anátema" - 24 Março - 21h30 "A Bruxa de Monte Córdova" - 24 Fevereiro - 21h30 "A Queda dum Anjo" - 20 Janeiro - 21h30

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