Casa de Camilo

Camilo Castelo Branco

Camilo Castelo Branco
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Seide Saúda-vos!

18 de junho de 2009

XVI - Amor de freira

(p. 179)

(...)

- O pouco que entendi da resposta - reflexionou António Joaquim - habilita-me a supor que Salomão já contava contigo, quando disse que o número dos tolos era infinito. É um sábio a julgar outro sábio. Agora, vamos à história, que daqui a pouco estás a salvo da liteira e de mim.
- Estás enganado! - acudi eu - Provavelmente irei ter contigo enquanto farejar no bojo da tua memória um romance inédito. Sou teu vampiro, António Joaquim! Hei-de sugar-te seis volumes da alma. Seis volumes, que serão as seis colunas do teu supedâneo no templo dos imortais!... Que fez depois teu tio? Dizias que umas pessoas tinham dó dele, e outras riam-se.
(...)

In Vinte Horas de Liteira - C.C.B.

16 de junho de 2009

XV - Os amores de Teresa

(p. 170)

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- Que magnífica boiada! - disse eu. - O boi é o qudrúpede que mais se parece com um filósofo. Vê tu o passo mesurado, grave, e cadente de um boi! O olhar meditativo! A sisudeza do aspeito! O ar revelativo de um complicado trabalho intelectual que se está elaborando naquela enorme cabeça! Há grandes filósofos inquestionavelmente menos sérios e cogitativos que o boi! Decerto, sabes, amigo Joaquim, a importância social, legendária, simbólica, e mítica do boi na antiguidade.
- Não sei isso bem - disse modestamente o meu amigo; - o que sei deste prestadio animal é que a humanidade o come há muitos séculos, e que nos jantares de Cressus e Luculus apareciam bois inteiros assados, e creio que no convento de Mafra também se assavam inteiros os bois.
(...)
Teresa, quando tinha doze anos, herdou de sua madrinha dous novilhos.
(...)
In Vinte Horas de Liteira - C.C.B.

14 de junho de 2009

XIV - Os percevejos de Baltar

(p.160)

António Joaquim fez-me o favor de achar engraçada a minha história, e perguntou-me quanto devia, visto que a minha profissão era vender histórias. Conspiraram poderosos sentimentos de gratidão para que eu, com o desprendimento do filósofo que rejeitou os tesouros de Xerxes, lhe dissesse que não era nada. Sem embargo da minha recusa, António Joaquim, deu-me um cigarro, e perguntou-me se os editores em Portugal eram mais liberais do que ele. Pude convencê-lo de que os editores em Portugal eram as hóstias imoladas espontaneamente nas aras das letras pátrias, e que eu, à minha parte, havia arruinado uns poucos, e os meus colegas o resto, de teor e modo que, volvidos alguns anos, os poetas e romancistas, se não pudessem viver repletos e intouridos das suas fantasias, haviam de ir às praças, à imitação de Homero, narrar os seus poemas e romances às multidões, que, em paga, lhes enramariam as frontes de acácias e cilindras.

Como este período estirado me tirasse a respiração, e a liteira parasse na estalagem de Baltar, apeámos.
(...)

In Vinte horas de Liteira - C.C.B.

12 de junho de 2009

XIII - A minha história

(p. 153-154)
- É chegada a ocasião de eu te contar uma história, se bem que sinceramente me dói o privar-me, entretanto, de ouvir-te - disse eu, no tom cortesão de qualquer dos estafadores da «Corte na Aldeia» de Rodrigues Lobo. - - A história dos brilhantes de tua prima sugere-me uma recordação de certo acontecimento que me faz rir muito, e que eu decerto, não sei reproduzir com graça. O caso passou-se em Lisboa, há quinze anos.
Um meu amigo, chamado José Cabral, rapaz mui galanteador e galanteado, rendia os seus afectos a uma secular recolhida num convento dos mais elegantes de Lisboa. Era uma senhora de meia-idade, ou da Idade Média, como José Cabral esturdiamente emendava, quando, com a zombaria, cuidava rebater as facécias de quem o carpisse nos seus amores aos quarenta anos de D. Paula Manuel Chichorro. Esta dama tinha sangue nobilíssimo nas veias, e um património regular, mas de cabeça era desconsertada algum tanto, por amor da mania, vinte e cinco anos inveterada, de fazer-se eterna nos versos de um poeta, como a Marília do Gonzaga, e a Elvira do poeta das «Meditações».
Neste propósito, deixou-se cortejar de vários poetas, alguns dos quais, desde 1834 até 1844, lhe consagraram e publicaram versos, que deviam dar-lhe eternidade à ilustre dama, se fossem lidos. Aqueles anos correram tumultuosos de comoções políticas. Qualquer florinha de poesia era desarreigada pelas borrascas da prosa das finanças, e atirada aos quatro ventos, que sacodem as ventarolas da humanidade. Assim, se explica, sem desdouro dos bardos, cantores de D. Paula Chichorro, o passar-se-lhe a década mais florida de graças, sem que o mundo soubesse quem lhe preludiava a eternidade em redondilha maior.
(...)
In Vinte horas de Liteira - C.C.B.
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Casa de Camilo - Noites de Insónia

«As “Noites de Insónia” têm como finalidade a descoberta de formas diferentes de aproximação aos textos camilianos, através da discussão em grupo de determinadas obras, escolhidas previamente. Do gosto pela leitura e da conversa sobre o que se lê, da troca de opiniões, de pontos de vista, de associações, procuraremos criar cumplicidades e desenvolver o gosto por uma leitura mais activa e partilhada da obra do romancista de Seide.» http://camilocastelobranco.org/index2.php?co=569&tp=6&cop=260&LG=0&mop=604&it=evento_lst Coordenadores: 2009 - Professor Cândido Oliveira Martins - Universidade Católica de Braga 2010 - Professor Sérgio Guimarães de Sousa - Universidade do Minho 2011 - Prof. João Paulo Braga

Encontros 2012 - Professor Sérgio

15 Fevereiro - "Memórias do Cárcere" - Discurso Preliminar
7 Março - "Memórias do Cárcere" - Do I capítulo ao V

Encontros 2011 - Professor Paulo

2011 "A Viúva do Enforcado" - 16 de Novembro - 21:30 "A Filha do Arcediago" - 19 de Outubro - 21:30 "As Aventuras de Basílio Enxertado" - 21 de Setembro - 21:30 "Maria Moisés" - 9 de Julho - 21:30 "O Cego de Landim" - 15 de Junho - 21:30 "O Retrato de Ricardina" - 4 de Maio - 21:30 "A Corja" - 6 de Abril - 21:30 "Eusébio Macário" - 9 de Março - 21:30 "A Sereia" - 9 de Fevereiro - 21:30

Encontros 2010 - Professor Sérgio

"Memórias de um suicida" - 30 de Novembro - 20h "O que fazem Mulheres" - 6 de Outubro - 21:30h "O Amor de Perdição" - 16 Junho - 20h "O Senhor do Paço de Ninães" - 21 Abril - 21h30 "Anátema" - 24 Março - 21h30 "A Bruxa de Monte Córdova" - 24 Fevereiro - 21h30 "A Queda dum Anjo" - 20 Janeiro - 21h30

Encontros 2009 - Professor Cândido

"Estrelas Propícias" - 11 Novembro - 20h "A Brasileira de Prazins" - 21 Outubro - 21h00 "Novelas do Minho" - 16 Setembro - 21h30 "Coração, Cabeça e Estômago" - 17 Junho - 21h30 "Vinte horas de Liteira" - 22 Maio - 21h30 "Memórias do Cárcere" - 30 Abril - 21h30