Casa de Camilo

Camilo Castelo Branco

Camilo Castelo Branco
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Seide Saúda-vos!

10 de junho de 2009

XII - História de um brilhante

(p. 127)

- Conta-me agora tu uma história - disse António Joaquim.

- Eu costumo vendê-las - respondi com o grave e sisudo desinteresse da arte. - Contava-te um conto bonito, se me desses este brilhante, que me vai cegando com o resplendor de Jeová ao povo escolhido.

- Esta pedra - observou o meu amigo, mostrando-me o anel - também tem história. Pertenceu aos brilhantes de minha prima Adriana.
(...)

... Disseram-lhe que era a suprema demonstração de juízo casar com o sócio de seu pai, porque era velho, e porque era rico: como velho, amá-la-ia como os novos já não amam; como rico, deixá-la-ia rica e nova para depois poder escolher marido. Adriana, ouvidas estas razões de senhoras idosas e experimentadas, sufocou as do coração, e deu-se ao amor e à riqueza do velho, com a tácita condicional de desejar incessantemente que ele morresse para casar com o novo. A sociedade desculpa esta desmoralização.
(...)
Francisco Elisário, que assim se chamava o marido de Adriana, não estudara o sexo feminino, como costumam estudá-lo uns certos sábios, que se enganam todos os dias, e apenas ganham dos seus estudos saberem que são enganados, como outros que nunca estudaram matéria tão incompreensível. O melhor mestre, em ciência tão abstracta, é o amor.
(...)
In "Vinte horas de Liteira" - C.C.B.

8 de junho de 2009

XI - Amor Paternal

(pág. 119 - 120)
(...)
- Este Miguel de Barros - disse eu a António Joaquim, - se não tivesse meninos, havia de conversar agradavelmente na cultura da abóbora e do feijão frade...
- Cala-te aí, selvagem! - atalhou o meu amigo - Se tu soubesses que as criancinhas foram os arcanjos redentores da alma e coração derrancados deste homem!...
- Então é cousa de história de amor do teu amigo aos meninos?
- É e verás. Miguel de Barros foi o homem que eu conheci mais precoce em desmoralizar-se. Aos vinte anos, dispunha de sua plena liberdade, de seus instintos maus, e de muito dinheiro, que ele escondera da vigilância do tutor, quando lhe morreu a mãe. Foi para Lisboa lapidar o brilhante bruto da sua bruta educação, e veio de lá aos vinte e quatro anos, assim, que o dinheiro se lhe acabou, e o conselho de família lhe restringiu as pensões.
Sem Deus, sem lei, sem mínima ideia de deveres, agora entrego à tua imaginação, e conjectura tu o que faria um rapaz de insinuante aspecto, lustrado com o polimento dos salões da capital, bem-falante, afeminado quanto convinha nas frivolidades gratas às damas de todo o mundo, e nomeadamente às damas da terra dele. Lido em histórias de amores aventurosos, tomou para modelo de sua alegre juventude os personagens mais simpáticos, e quis, à força da poesia, intercalada de prosa, enflorar as suas patrícias, fazendo-as também personagens, chamando Elviras umas, Ofélias outras, outras Desdémonas, Virgínias algumas, e pelos modos achou de tudo, ou tudo compôs com a sua prosa e poesia.
(...)
In "Vinte Horas de Liteira" - C.C.B.

6 de junho de 2009

X - O Ermitão

(pág. 112 - 113)

(...)
... A contrição do crime é a mais expressiva e tocante homenagem às consciências puras. Os remorsos da vida pecaminosa valem mais como exemplo que a serena prática das virtudes. A gente repara mais nas lágrimas da penitência que nas alegrias da alma inocente... Parece que te enfadam estas máximas!...
- Não: eu gosto muito de máximas - respondi; - porém, quando as narrativas me interessam a curiosidade, antes quero ouvir as máximas no fim da história. No entanto, se...
- Pois sim: eu vou direito ao ponto, visto que não é lícito imitar-te na manha com que tu, nos teus romances, ensartas axiomas, quando a imaginação te emperra.
- Agradecido... Não se pode ser La Rochefoucauld sem ter-se a fantasia perra!... Tu e os leitores da tua laia é que afogam os embriões dos escritores aforismáticos em Portugal. Pois sabe tu que a eternidade de muitos livros é o estilo sentencioso que lha dá. Os romances vão a pique, às vinte e quatro horas de navegação, porque não levam lastro de sentenças. Entre nós, há um exemplo da duração de um renome, devido à gravidade das máximas: são os romances do conselheiro Rodrigues de Bastos. É, todavia, necessário que o escritor seja melhor de oitenta anos para que os leitores lhe relevem o tom pedagógico dos axiomas...
- Agora, o estafador da paciência estás sendo tu - atalhou António Joaquim.
(...)
In "Vinte Horas de Liteira" - C.C.B.

4 de junho de 2009

IX - O enjeitado

(pág. 102 - 103)

(...)
- O homem não morre?

- Qual homem? - perguntou o comendador.

- O brasileiro - respondeu o cirurgião.

- Graças ao Altíssimo! - exclamou Teresa.

Tu devias também exclamar alguma cousa! - me disse António Joaquim. - Bem se vê que tens calo no sentimento! Não há surpresa que comova um romancista, vezado a inventar surpresas, que transcendem os limites do disparate.

- Estou pasmado; mas não exclamo - disse eu.

- O brasileiro - continuou o meu amigo -, assim que se viu ferido numa espádua, declarou que estava morto, e caiu sem sentidos. Os homens da justiça levaram-no para casa com reputação de defunto, e...

- E os sinos - ajuntei eu -, que não tinham razão para serem mais entendidos em ferimentos que os oficiais de justiça, começaram espontaneamente a badalar a finados.

- Não foi tanto assim. Os sinos dobravam por uma velha que morrera na freguesia vizinha; e, como ela era irmã de uma confraria da outra, tinha sufrágios de uma missa, e um toque a defuntos. Tanta pergunta! É costume teu amiudares as explicações aos teus leitores?!

- É, quando os sinos tocam a defuntos por pessoas que não morreram. E depois?
(...)

In "Vinte Horas de Liteira" - C.C.B.
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Casa de Camilo - Noites de Insónia

«As “Noites de Insónia” têm como finalidade a descoberta de formas diferentes de aproximação aos textos camilianos, através da discussão em grupo de determinadas obras, escolhidas previamente. Do gosto pela leitura e da conversa sobre o que se lê, da troca de opiniões, de pontos de vista, de associações, procuraremos criar cumplicidades e desenvolver o gosto por uma leitura mais activa e partilhada da obra do romancista de Seide.» http://camilocastelobranco.org/index2.php?co=569&tp=6&cop=260&LG=0&mop=604&it=evento_lst Coordenadores: 2009 - Professor Cândido Oliveira Martins - Universidade Católica de Braga 2010 - Professor Sérgio Guimarães de Sousa - Universidade do Minho 2011 - Prof. João Paulo Braga

Encontros 2012 - Professor Sérgio

15 Fevereiro - "Memórias do Cárcere" - Discurso Preliminar
7 Março - "Memórias do Cárcere" - Do I capítulo ao V

Encontros 2011 - Professor Paulo

2011 "A Viúva do Enforcado" - 16 de Novembro - 21:30 "A Filha do Arcediago" - 19 de Outubro - 21:30 "As Aventuras de Basílio Enxertado" - 21 de Setembro - 21:30 "Maria Moisés" - 9 de Julho - 21:30 "O Cego de Landim" - 15 de Junho - 21:30 "O Retrato de Ricardina" - 4 de Maio - 21:30 "A Corja" - 6 de Abril - 21:30 "Eusébio Macário" - 9 de Março - 21:30 "A Sereia" - 9 de Fevereiro - 21:30

Encontros 2010 - Professor Sérgio

"Memórias de um suicida" - 30 de Novembro - 20h "O que fazem Mulheres" - 6 de Outubro - 21:30h "O Amor de Perdição" - 16 Junho - 20h "O Senhor do Paço de Ninães" - 21 Abril - 21h30 "Anátema" - 24 Março - 21h30 "A Bruxa de Monte Córdova" - 24 Fevereiro - 21h30 "A Queda dum Anjo" - 20 Janeiro - 21h30

Encontros 2009 - Professor Cândido

"Estrelas Propícias" - 11 Novembro - 20h "A Brasileira de Prazins" - 21 Outubro - 21h00 "Novelas do Minho" - 16 Setembro - 21h30 "Coração, Cabeça e Estômago" - 17 Junho - 21h30 "Vinte horas de Liteira" - 22 Maio - 21h30 "Memórias do Cárcere" - 30 Abril - 21h30