Casa de Camilo

Camilo Castelo Branco

Camilo Castelo Branco
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Seide Saúda-vos!

8 de junho de 2009

XI - Amor Paternal

(pág. 119 - 120)
(...)
- Este Miguel de Barros - disse eu a António Joaquim, - se não tivesse meninos, havia de conversar agradavelmente na cultura da abóbora e do feijão frade...
- Cala-te aí, selvagem! - atalhou o meu amigo - Se tu soubesses que as criancinhas foram os arcanjos redentores da alma e coração derrancados deste homem!...
- Então é cousa de história de amor do teu amigo aos meninos?
- É e verás. Miguel de Barros foi o homem que eu conheci mais precoce em desmoralizar-se. Aos vinte anos, dispunha de sua plena liberdade, de seus instintos maus, e de muito dinheiro, que ele escondera da vigilância do tutor, quando lhe morreu a mãe. Foi para Lisboa lapidar o brilhante bruto da sua bruta educação, e veio de lá aos vinte e quatro anos, assim, que o dinheiro se lhe acabou, e o conselho de família lhe restringiu as pensões.
Sem Deus, sem lei, sem mínima ideia de deveres, agora entrego à tua imaginação, e conjectura tu o que faria um rapaz de insinuante aspecto, lustrado com o polimento dos salões da capital, bem-falante, afeminado quanto convinha nas frivolidades gratas às damas de todo o mundo, e nomeadamente às damas da terra dele. Lido em histórias de amores aventurosos, tomou para modelo de sua alegre juventude os personagens mais simpáticos, e quis, à força da poesia, intercalada de prosa, enflorar as suas patrícias, fazendo-as também personagens, chamando Elviras umas, Ofélias outras, outras Desdémonas, Virgínias algumas, e pelos modos achou de tudo, ou tudo compôs com a sua prosa e poesia.
(...)
In "Vinte Horas de Liteira" - C.C.B.

6 de junho de 2009

X - O Ermitão

(pág. 112 - 113)

(...)
... A contrição do crime é a mais expressiva e tocante homenagem às consciências puras. Os remorsos da vida pecaminosa valem mais como exemplo que a serena prática das virtudes. A gente repara mais nas lágrimas da penitência que nas alegrias da alma inocente... Parece que te enfadam estas máximas!...
- Não: eu gosto muito de máximas - respondi; - porém, quando as narrativas me interessam a curiosidade, antes quero ouvir as máximas no fim da história. No entanto, se...
- Pois sim: eu vou direito ao ponto, visto que não é lícito imitar-te na manha com que tu, nos teus romances, ensartas axiomas, quando a imaginação te emperra.
- Agradecido... Não se pode ser La Rochefoucauld sem ter-se a fantasia perra!... Tu e os leitores da tua laia é que afogam os embriões dos escritores aforismáticos em Portugal. Pois sabe tu que a eternidade de muitos livros é o estilo sentencioso que lha dá. Os romances vão a pique, às vinte e quatro horas de navegação, porque não levam lastro de sentenças. Entre nós, há um exemplo da duração de um renome, devido à gravidade das máximas: são os romances do conselheiro Rodrigues de Bastos. É, todavia, necessário que o escritor seja melhor de oitenta anos para que os leitores lhe relevem o tom pedagógico dos axiomas...
- Agora, o estafador da paciência estás sendo tu - atalhou António Joaquim.
(...)
In "Vinte Horas de Liteira" - C.C.B.

4 de junho de 2009

IX - O enjeitado

(pág. 102 - 103)

(...)
- O homem não morre?

- Qual homem? - perguntou o comendador.

- O brasileiro - respondeu o cirurgião.

- Graças ao Altíssimo! - exclamou Teresa.

Tu devias também exclamar alguma cousa! - me disse António Joaquim. - Bem se vê que tens calo no sentimento! Não há surpresa que comova um romancista, vezado a inventar surpresas, que transcendem os limites do disparate.

- Estou pasmado; mas não exclamo - disse eu.

- O brasileiro - continuou o meu amigo -, assim que se viu ferido numa espádua, declarou que estava morto, e caiu sem sentidos. Os homens da justiça levaram-no para casa com reputação de defunto, e...

- E os sinos - ajuntei eu -, que não tinham razão para serem mais entendidos em ferimentos que os oficiais de justiça, começaram espontaneamente a badalar a finados.

- Não foi tanto assim. Os sinos dobravam por uma velha que morrera na freguesia vizinha; e, como ela era irmã de uma confraria da outra, tinha sufrágios de uma missa, e um toque a defuntos. Tanta pergunta! É costume teu amiudares as explicações aos teus leitores?!

- É, quando os sinos tocam a defuntos por pessoas que não morreram. E depois?
(...)

In "Vinte Horas de Liteira" - C.C.B.

2 de junho de 2009

VIII - Os tesouros do príncipe turco

(p. 83-85-87)

- Não tens uma história de feitiços que me contes? - disse eu ao meu amigo.
- De feitiços não me lembra história nenhuma; porém, no género mágico, posso contar-te o que sucedeu a meu tio João Manuel com o livro de S. Cipriano. Tu sabes que nunca houve Cipriano nenhum que escrevesse tal livro...
(...)
Meu tio, o padre, e um cavador da confiança de meu tio, carregado de virtualhas para um dia, e de instrumentos para as primeiras explorações, subiram, há trinat e tantos anos, ao espinhaço da serra de Vermoim. O padre era muito mais alumidao que meu tio em história. Sentou-se ele numa fraga, depois que almoçaram, e contou que um príncipe turco da Mourama vivera naquele sítio com muitas riquezas roubadas aos cristãos.
(...)
Posto isto assim com esta clareza histórica, verdade que escapou aos cronicões dos monges, que escreveram a mitologia de Portugal, o padre barrosão disse que os tesouros deviam de estar a curta distância da cisterna, cujos bordos eram ainda visíveis na superfície escabrosa da chã, em que o castelo se sepultara. Meu tio conformou-se a este sensato parecer; e começaram os trabalhos de escavação, depois de beberem um bom trago da borracha, tesouro que eles tinha, levado, sem indicações de S. Cipriano.
(...)
Como a noute dá conselho, meu tio e o padre deliberaram partir para o Porto de madrugada, e oferecer as pedras à análise de peritos para lhes determinarem o valor.
O ar misterioso com que eles se apresentaram a um ourives faceto da Rua das Flores, foi uma solene recomendação de sua tolice. O primeiro impulso do ourives foi dar-lhes com os dous calhaus na cabeça deles; porém, amigo de rir-se, mudou de cara, fez-se pasmado da riqueza do achado, contrastou as pedras, e exclamou cavamente:
- Onde acharam os senhores esta riqueza?
(...)
In "Vinte horas de Liteira" - C.C.B.
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Casa de Camilo - Noites de Insónia

«As “Noites de Insónia” têm como finalidade a descoberta de formas diferentes de aproximação aos textos camilianos, através da discussão em grupo de determinadas obras, escolhidas previamente. Do gosto pela leitura e da conversa sobre o que se lê, da troca de opiniões, de pontos de vista, de associações, procuraremos criar cumplicidades e desenvolver o gosto por uma leitura mais activa e partilhada da obra do romancista de Seide.» http://camilocastelobranco.org/index2.php?co=569&tp=6&cop=260&LG=0&mop=604&it=evento_lst Coordenadores: 2009 - Professor Cândido Oliveira Martins - Universidade Católica de Braga 2010 - Professor Sérgio Guimarães de Sousa - Universidade do Minho 2011 - Prof. João Paulo Braga

Encontros 2012 - Professor Sérgio

15 Fevereiro - "Memórias do Cárcere" - Discurso Preliminar
7 Março - "Memórias do Cárcere" - Do I capítulo ao V

Encontros 2011 - Professor Paulo

2011 "A Viúva do Enforcado" - 16 de Novembro - 21:30 "A Filha do Arcediago" - 19 de Outubro - 21:30 "As Aventuras de Basílio Enxertado" - 21 de Setembro - 21:30 "Maria Moisés" - 9 de Julho - 21:30 "O Cego de Landim" - 15 de Junho - 21:30 "O Retrato de Ricardina" - 4 de Maio - 21:30 "A Corja" - 6 de Abril - 21:30 "Eusébio Macário" - 9 de Março - 21:30 "A Sereia" - 9 de Fevereiro - 21:30

Encontros 2010 - Professor Sérgio

"Memórias de um suicida" - 30 de Novembro - 20h "O que fazem Mulheres" - 6 de Outubro - 21:30h "O Amor de Perdição" - 16 Junho - 20h "O Senhor do Paço de Ninães" - 21 Abril - 21h30 "Anátema" - 24 Março - 21h30 "A Bruxa de Monte Córdova" - 24 Fevereiro - 21h30 "A Queda dum Anjo" - 20 Janeiro - 21h30

Encontros 2009 - Professor Cândido

"Estrelas Propícias" - 11 Novembro - 20h "A Brasileira de Prazins" - 21 Outubro - 21h00 "Novelas do Minho" - 16 Setembro - 21h30 "Coração, Cabeça e Estômago" - 17 Junho - 21h30 "Vinte horas de Liteira" - 22 Maio - 21h30 "Memórias do Cárcere" - 30 Abril - 21h30