Casa de Camilo

Camilo Castelo Branco

Camilo Castelo Branco
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Seide Saúda-vos!

2 de junho de 2009

VIII - Os tesouros do príncipe turco

(p. 83-85-87)

- Não tens uma história de feitiços que me contes? - disse eu ao meu amigo.
- De feitiços não me lembra história nenhuma; porém, no género mágico, posso contar-te o que sucedeu a meu tio João Manuel com o livro de S. Cipriano. Tu sabes que nunca houve Cipriano nenhum que escrevesse tal livro...
(...)
Meu tio, o padre, e um cavador da confiança de meu tio, carregado de virtualhas para um dia, e de instrumentos para as primeiras explorações, subiram, há trinat e tantos anos, ao espinhaço da serra de Vermoim. O padre era muito mais alumidao que meu tio em história. Sentou-se ele numa fraga, depois que almoçaram, e contou que um príncipe turco da Mourama vivera naquele sítio com muitas riquezas roubadas aos cristãos.
(...)
Posto isto assim com esta clareza histórica, verdade que escapou aos cronicões dos monges, que escreveram a mitologia de Portugal, o padre barrosão disse que os tesouros deviam de estar a curta distância da cisterna, cujos bordos eram ainda visíveis na superfície escabrosa da chã, em que o castelo se sepultara. Meu tio conformou-se a este sensato parecer; e começaram os trabalhos de escavação, depois de beberem um bom trago da borracha, tesouro que eles tinha, levado, sem indicações de S. Cipriano.
(...)
Como a noute dá conselho, meu tio e o padre deliberaram partir para o Porto de madrugada, e oferecer as pedras à análise de peritos para lhes determinarem o valor.
O ar misterioso com que eles se apresentaram a um ourives faceto da Rua das Flores, foi uma solene recomendação de sua tolice. O primeiro impulso do ourives foi dar-lhes com os dous calhaus na cabeça deles; porém, amigo de rir-se, mudou de cara, fez-se pasmado da riqueza do achado, contrastou as pedras, e exclamou cavamente:
- Onde acharam os senhores esta riqueza?
(...)
In "Vinte horas de Liteira" - C.C.B.

30 de maio de 2009

VII - A gratidão

(pág. 76)
(...)
A humanidade entrou em refundição, nestes últimos anos, e converteu-se em valores. O homem já não é animal bípede implume, nem rei da criação, nem homem: é moeda. O que por ora lhe não fazem é tocá-lo sobre um balcão a ver se ele tine bem, e dá os quilates legais; mas, com o decurso dos descobrimentos, há-de inventar-se um qualquer instrumento, mediante o qual se determine rigorosamente as libras que cada pessoa tem na algibeira e as que deixou em casa. Este instrumento há-de dispensar a boa-fé necessária nos contratos, a probidade comercial, e as custosas informações que se tiram dos sujeitos de «fortuna» equívoca.
Nesses futuros próximos e auspiciosos dias, que eu tenho a honra e glória de profetizar ao género humano, os pais de meninas desposáveis não hão-de ser enganados pelos genros, nem os genros pelos sogros; o capitalista saberá, a ponto, se o aceitante da letra está endinheirado na véspera do vencimento; a prima-dona observará de antemão se o empresário premedita caloteá-la na melhor boa-fé de empresário insolvente. É um sem número de vantagens sociais a promanarem da invenção do instrumento, que poderá chamar-se numímetro, de numus, «dinheiro», e metron, «medida».
Tudo nos anuncia o próximo aparecimento do numímetro.
É preciso que se invente alguma cousa que supra a falta de lealdade nos contratos, a qual se há-de ir quebrantando, à medida que a religião, forja onde se caldeiam e depuram as consciências, se for desluzindo.
(...)
In "Vinte Horas de Liteira" - C.C.B.

29 de maio de 2009

VI - A Cruz do Outeiro

(pág.s 71/72)
(...)
- Eu queria ser caixeiro - disse Manuel.
- Escreva aí o seu nome - disse o negociante.
Manuel pegou da pena como quem pega numa verruma, e furou o papel três vezes antes de escrever o M.
- Está bom, está bom - acudiu o outro sorrindo; - já vejo que tem letra inglesa!... E quer você ser caixeiro! Estava mais talhado para professor de primeiras letras. Quem escreve assim, o que deve é ensinar a escrever. Vejamos como está de contas. Faça aí uma operação de quebrados. Ponha lá...
Manuel esbugalhou os olhos, e exclamou:
- O quê?
- Você sabe a regar de três? sabe as quatro operações aritméticas?
- Eu não sei nada disso, senhor!
- Pois não sabe fazer contas?!
- Sei cá p'ra me remediar; mas lá disso de ... como é?... a gente, quando lhe faz minga, conta pelos dedos.
- Ora, meu amigo - radarguiu o compassivo português, vá-se embora; fuja do Brasil, se cá não quer dar ossada. Você não tem senão o recurso da enxada; enxada por enxada, vá trabalhar na sua terra: um jornal de quatro vinténs por dia é lá melhor que três patacas no Brasil.
- Graças a Deus, eu que tenho bens meus onde trabalhar - replicou Manuel. - As minhas terras valem oitenta centos.
- Pois você é lavrador, tem bens, e vem para o Brasil procurar fortuna? Sabe que mais, se não quer ir para Portugal, vá para o diabo, que eu não questiono doudos.
Manuel saiu confundido e com a alma de negro. Não falando já nos pretos que via, tudo lhe parecia da cor da alma.
(...)
In "Vinte Horas de Liteira" - C.C.B.

28 de maio de 2009

V - História das janelas fechadas há 30 anos

(pág.51/52)

- Conta-me agora uma história sem dinheiro - pedi eu ao meu amigo.

-Queres então uma história sentimental?

- Isso.

- História de sentimento aldeão? Eu não posso contar de outras. Bem sabes que da vida das cidades nada sei.

- Vejamos: pode bem ser que me vás referir cousas muito originais!

- Onde tu vens!... originalidade!

- Onde devo ir. Nas cidades é que já não há sentimento de originalidade nenhuma. As paixões, de lá, boas e más, têm tal analogia, que parece haver uma só manivela para todos os corações. Esta identidade é grande parte na monotomia dos meus romances. Há duas ou três situações que, mais ou menos, ressaem no enredo de vinte dos meus volumes, cogitados, estudados, e escritos nas cidades. Quando quero retemperar a imaginação gasta, vou caldeá-la à incude do viver campesino. Avoco lembranças da minha infância e adolescência, passadas na aldeia, e até a linguagem me sai de outro feitio, singela sem afectação, casquilha sem os requebrados volteios, que lhe dão os invezados estilistas bucólicos. Assim que descaio em dispor as cenas da vida culta, aí vem a verbosidade estrondosa, o tom declamatório, as infladas objurgatórias ao vício, ou panegíricos, tirados à força da violentada consciência, a umas inocentes virtudes, que me têm granjeado descréditos de romancista da lua. Conta-me, pois, uma história sentimental, meu amigo.

(...)

In "Vinte Horas de Liteira" - C.C.B.

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Casa de Camilo - Noites de Insónia

«As “Noites de Insónia” têm como finalidade a descoberta de formas diferentes de aproximação aos textos camilianos, através da discussão em grupo de determinadas obras, escolhidas previamente. Do gosto pela leitura e da conversa sobre o que se lê, da troca de opiniões, de pontos de vista, de associações, procuraremos criar cumplicidades e desenvolver o gosto por uma leitura mais activa e partilhada da obra do romancista de Seide.» http://camilocastelobranco.org/index2.php?co=569&tp=6&cop=260&LG=0&mop=604&it=evento_lst Coordenadores: 2009 - Professor Cândido Oliveira Martins - Universidade Católica de Braga 2010 - Professor Sérgio Guimarães de Sousa - Universidade do Minho 2011 - Prof. João Paulo Braga

Encontros 2012 - Professor Sérgio

15 Fevereiro - "Memórias do Cárcere" - Discurso Preliminar
7 Março - "Memórias do Cárcere" - Do I capítulo ao V

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"Memórias de um suicida" - 30 de Novembro - 20h "O que fazem Mulheres" - 6 de Outubro - 21:30h "O Amor de Perdição" - 16 Junho - 20h "O Senhor do Paço de Ninães" - 21 Abril - 21h30 "Anátema" - 24 Março - 21h30 "A Bruxa de Monte Córdova" - 24 Fevereiro - 21h30 "A Queda dum Anjo" - 20 Janeiro - 21h30

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