Casa de Camilo

Camilo Castelo Branco

Camilo Castelo Branco
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Seide Saúda-vos!

26 de maio de 2009

III - Maldito seja entre vós quem jogar


Mais umas ironias do romancista da lua... ou romancista descabelado, como lhe chama António Joaquim, nesta história.


(Pág. 26)
(...)
- Fala sério, homem! - atalhou António Joaquim - Tu tens a tua independência feita e estás no caminho de...
- Morrer...
- Com cem contos, e uma estátua na tua terra, à custa da nação agradecida.
- Estátua do espanto me fazes tu, amigo António! Se não fosses engraçado, serias tolo! Pois tu cuidas que eu vivo dos romances?
- Cuidei...
- Nada, não... Eu vivo da glória. Descobri em mim um segundo aparelho digestivo, que elabora, em substância nutritiva, a glória.
- Isso parece-me útil - obtemperou o meu amigo; - porém, seria justo que tivesses teu um décimo do dinheiro que tens dado a tanta gente...
- A quem?!
- Aos personagens das tuas novelas.
(...)
In "Vinte Horas de Liteira" - C.C.B.

25 de maio de 2009

I e II - A égua que salva



A cada história, emprestava Camilo o seu tom irónico, galhofeiro,... de quem sabia fazer espírito.


Repassarei algumas dessas passagens, no seu diálogo com António Joaquim.

« - Isso não é questionar, é fazer espírito - interrompi. - Seja o que for, é uma cousa que depõe vantajosamente a favor da tua habilidade galhofeira. Em todo o caso, entendes tu que não há mulher que salve!
- Entendo. Cousa que salve há uma só: é a experiência das mulheres que perdem. Ainda há uma outra, que não ouso dizer-te com medo que me julgues um zombeteiro de mau gosto.
- Que cousa é essa?...diz lá!
- É uma égua brava.
- Uma égua brava?! Que mangação!
- Ouve lá a história de uma égua que salva
(...)

«Tratou ele de colher vingança por mais covardes traças.
Denunciou ao pai de Maria os nossos breves diálogos da janela do muro. A mãe, esforçada pelo nariz que eu trasladara, sem malícia, na parede da igreja, instigou o marido, fumegando vaporações de raiva pelo nariz original. Foi a menina proibida de ir ao miradouro.»
(...)

«A srª Joana passou a esponja da razão sobre o nariz pintado; o sr. João, marido dela, esqueceu a ofensa involuntária às suas pombas; minha mãe chorou as derradeiras lágrimas sobre a mitra dos seus sonhos episcopais; e meu pai foi obrigado a concordar que os trajos das senhoras cidadãs não pegavam nem implicavam desonestidade às meninas das aldeias. Os dois clérigos deram por concluída, cooperante a protecção divina, a sua missão, e escreveram os proclamas para serem lidos nos três dias santificados.»


In "Vinte Horas de Liteira" - C.C.B.

24 de maio de 2009

22 de Maio: Vinte Horas de Liteira


VINTE HORAS DE LITEIRA – em abertura das obras de Camilo, nas conversas e nas ideias que se possam cruzar, pelos elementos inscritos em Noites de Insónias.

Um livro de um magnetismo total, que me prendeu, noite após noite, ao leito da minha insónia. Quando o terminei de ler, ficou-me a nostalgia do apear-me de uma companhia espirituosa e plena de Alma, como a de Camilo Castelo Branco.

Como diz no prefácio deste livro, “Vinte horas de Liteira faz-nos acompanhar Camilo em viagem de Vila Real ao Porto, viagem que motiva, justifica e suporta um seu diálogo com António Joaquim, suposto companheiro do hipotético percurso.”

São dezasseis histórias, que embora produtos da imaginação fantasiosa de Camilo, não perdem vida e valor, “como documentos singularmente fidedignos da sociedade portuguesa de Oitocentos.”- (em nota editorial).

Uma escolha muito feliz, sugerida pelo nosso guia camiliano, o professor Cândido Oliveira Martins. E feliz, porque para quem não lê Camilo há muito, este livro, pouco volumoso, leva-nos a memórias e a imaginações de outros livros de Camilo, como se esta pequena/grande obra fosse uma amostra, o “sumo” bem espremido de todas as outras.

Para quem não conhece Camilo, fica a conhecê-lo como um homem ligado à vida do campo e, como escritor, recorrendo a vários meios e a estilos de linguagem, como o próprio escreveu em “História das janelas fechadas há 30 anos” (págs. 51/52):

“Quando quero retemperar a imaginação gasta, vou caldeá-la à incude* do viver campesino. Avoco lembranças da minha infância e adolescência, passadas na aldeia, e até a linguagem me sai de outro feitio, singela sem afectação, casquilha sem os requebrados volteios, que lhe dão os invezados estilistas bucólicos. Assim que descaio em dispor as cenas da vida culta, aí vem a verbosidade estrondosa, o tom declamatório, as infladas objurgatórias** ao vício, ou panegíricos***, tirados à força da violentada consciência, a umas inocentes virtudes, que me têm granjeado descréditos de romancista da lua."

Decorreu esta sessão num clima de entusiasmo, procurando reflectir o espírito camiliano, as ironias, a soberania na linguagem, a riqueza de quem possui uma sensibilidade que contempla, sobretudo, a alma humana.
Para finalizar o convívio é oferecido um vinho do Porto pela Casa de Camilo, mais uns docinhos... como oferta extra, 'rotativa', sugerida pelo seu representante: Dr. José Manuel Oliveira; desta vez, suplantado pelo amigo Jerónimo Oliveira, que nos fez apear da Liteira e comer um bom presunto, salpicão, azeitonas, pão e bolo caseiro, tudo regado com um bom vinho branco, daqueles que escorregam pela garganta e sobem pela nuca.

Não foi do vinho, mas suspirei...!

«Ah…! Quanto daria eu para ver Camilo refastelar-se à mesa de sua antiga casa, saboreando deste rico manjar minhoto, contando-nos as histórias de anjos diplomatas em negociações de inocentes afectos, nas viagens de mais do que vinte horas de outros céus,... de coração alegre, lúcido, perfumado e intumecido de delícias…»

Resta-me a consolação de saber que a 17 de Junho, retomaremos mais uma conversa, com "Coração, Cabeça e Estômago"!

Nota: Foi ainda comentada a falta de umas notas de rodapé nas obras - a trocarem certa "verbosidade estrondosa" de Camilo, direccionada mais para a vida culta, por alguns significados mais casquilhados, mais ao modo do viver campesino - como este onde nos encontramos, na Casa de Camilo, em S. Miguel de Seide.
Dicionário de palavras: *incude - bigorna; **ojurgatórias - censuras; ***panegíricos - louvores
Agora o registo fotográfico:

23 de maio de 2009

A primeira comunidade de leitores - 15 de Maio


Leitores de Camilo reúnem-se na Casa de Seide
Maio 15, 2009 por casadecamilo



Um texto de Amadeu Gonçalves


A primeira comunidade de leitores em torno da obra e da textualidade de Camilo Castelo Branco, organizada pela Casa-Museu em S. Miguel de Seide, V. N. de Famalicão, reuniu-se pela primeira vez no passado dia 30 de Abril.Inserida na actividade Noites de Insónia, teve como mediador Cândido Oliveira Martins, professor da Faculdade de Filosofia de Braga/Universidade Católica Portuguesa, que escolheu para este primeiro encontro a obra Memórias do Cárcere (MC), decorrendo a sessão de uma forma bastante informal, comunicando os presentes entre si o que a leitura da obra seleccionada lhes proporcionou. Se a comunidade, neste primeiro encontro, tinha em si alguns especialistas da obra camiliana, curiosos e outros simples leitores, o que então se verificou foi uma simples troca de ideias perante o que a obra de Camilo revela.Para Cândido Martins, a questão da escolha das MC para esta primeira sessão da comunidade leitores camiliana, deve-se, particularmente, às seguintes razões: o sucesso editorial da obra e a publicação de algumas histórias contidas na narração com várias edições, caso de José do Telhado, o pendor narrativo, o qual evidencia o factor de coesão, apesar de poder evidenciar ao seu leitor uma estrutura desconexa, e, na sua sequência, tais histórias narrativas transmitem a ideia de potenciais romances, e, finalmente, evocou o cenário da prisão, o qual foi ímpar de observação para analisar a psicologia humana, nas suas misérias e grandezas. Cândido Martins salientou também Camilo na sua plena maturidade perante a arte de contar, assim como também a actividade profícua na prisão, entre leituras (as quais algumas são ficcionais, digo) escreve Doze Casamentos Felizes, Amor de Perdição e textos jornalísticos.

(...)


O resto do texto em Casa de Camilo

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Casa de Camilo - Noites de Insónia

«As “Noites de Insónia” têm como finalidade a descoberta de formas diferentes de aproximação aos textos camilianos, através da discussão em grupo de determinadas obras, escolhidas previamente. Do gosto pela leitura e da conversa sobre o que se lê, da troca de opiniões, de pontos de vista, de associações, procuraremos criar cumplicidades e desenvolver o gosto por uma leitura mais activa e partilhada da obra do romancista de Seide.» http://camilocastelobranco.org/index2.php?co=569&tp=6&cop=260&LG=0&mop=604&it=evento_lst Coordenadores: 2009 - Professor Cândido Oliveira Martins - Universidade Católica de Braga 2010 - Professor Sérgio Guimarães de Sousa - Universidade do Minho 2011 - Prof. João Paulo Braga

Encontros 2012 - Professor Sérgio

15 Fevereiro - "Memórias do Cárcere" - Discurso Preliminar
7 Março - "Memórias do Cárcere" - Do I capítulo ao V

Encontros 2011 - Professor Paulo

2011 "A Viúva do Enforcado" - 16 de Novembro - 21:30 "A Filha do Arcediago" - 19 de Outubro - 21:30 "As Aventuras de Basílio Enxertado" - 21 de Setembro - 21:30 "Maria Moisés" - 9 de Julho - 21:30 "O Cego de Landim" - 15 de Junho - 21:30 "O Retrato de Ricardina" - 4 de Maio - 21:30 "A Corja" - 6 de Abril - 21:30 "Eusébio Macário" - 9 de Março - 21:30 "A Sereia" - 9 de Fevereiro - 21:30

Encontros 2010 - Professor Sérgio

"Memórias de um suicida" - 30 de Novembro - 20h "O que fazem Mulheres" - 6 de Outubro - 21:30h "O Amor de Perdição" - 16 Junho - 20h "O Senhor do Paço de Ninães" - 21 Abril - 21h30 "Anátema" - 24 Março - 21h30 "A Bruxa de Monte Córdova" - 24 Fevereiro - 21h30 "A Queda dum Anjo" - 20 Janeiro - 21h30

Encontros 2009 - Professor Cândido

"Estrelas Propícias" - 11 Novembro - 20h "A Brasileira de Prazins" - 21 Outubro - 21h00 "Novelas do Minho" - 16 Setembro - 21h30 "Coração, Cabeça e Estômago" - 17 Junho - 21h30 "Vinte horas de Liteira" - 22 Maio - 21h30 "Memórias do Cárcere" - 30 Abril - 21h30